Hand in Glove

Antes de ir de férias, Pedro Marques Lopes escreveu isto no Diário de Notícias:

Reparei que muita gente não se exaltou com o emprego de Maria Luís Albuquerque ou o de Durão Barroso. Desta vez, pouca gente não se indignou com a conduta dos três secretários de Estado, e notou-se muito menos os habituais comportamentos de trincheira do que em casos de atuações sérias contra a ética ou mesmo contra a lei.

Não devo estar bem da cabeça. Ou, em alternativa, vivo num país diferente do país do Pedro Marques ‘O Durão Barroso Deixou-me À Beira De Uma Síncope’ Lopes. O que, não sendo verdade, implica que estou decididamente maluco.

Como foi público e notório, houve muitíssima gente exaltada com o emprego de Maria Luís Albuquerque e mais ainda com o de Durão Barroso (com direito a reacções além-fronteiras). As redes sociais – um excelente barómetro de exaltações – estiveram ao rubro. Por todo o lado se mastigou o assunto.

Aquilo que Pedro Marques ‘Vou Lavar a Boca Sempre Que Disser Durão Barroso’ Lopes escreveu é, simplesmente, falso. O que não deixa de ser curioso: o articulista foi o segundo mais excitado comentador do caso Barroso-Sachs, companheiro radiofónico do número um.

Mais: plantar Durão Barroso e Maria Luís Albuquerque neste caso é contribuir para saturar (mais ainda) o comentarismo luso com o seu artefacto retórico fétiche: a «invocação redentoro-salvífica.» Temos facto desagradável, obsceno ou embaraçoso? Invoca aí outro «equivalente» que o desvalorize por comparação ou mera companhia. Não é bem a mesma coisa? Não interessa: afinfa-lhe. Não há cão nem gato que não use e abuse deste mecanismo.

Que utilidade tem a análise comparativa das reacções populares nos casos de Durão Barroso, Maria Luís Albuquerque e Rocha Andrade? Obviamente, nenhuma. O Pedro Marques ‘O Durão É Um Tratante’ Lopes acha-a «curiosa» na medida em que parece evidenciar a tendência popular de vergastar os que, pelas suas acções, acabam a reflectir a comezinha fraqueza moral dos populares, esquecendo, pelo caminho, os verdadeiros tubarões (os que actuam «contra a ética ou mesmo contra a lei.») Uma belíssima treta.

O Presidente da comissão que reviu o Código do Procedimento Administrativo, Fausto Quadros, foi claro num caso que é claro: «se os secretários de Estados não pedirem para se afastarem de decisões que envolvam a Galp, todos os actos podem ser anulados em tribunal, por exemplo através de uma acção interposta por um concorrente da empresa.” E acrescentou: “a lei portuguesa nem é das mais exigentes a nível europeu e a lógica do legislador é que quem recebe uma prenda fica a dever um favor a quem fez a oferta.» Ao contrário do que Pedro Marques ‘Nem Um Carro Usado Compraria Ao Durão Barroso’ Lopes insinua, este caso não nos remete para um acesso populista de puritanismo ou para um inadequado quadro de assepsia num ambiente humano, invariavelmente falível e naturalmente imperfeito.

Não perceber que, hoje em dia, as democracias ou a res publica precisam do tranquilo mas exemplar cumprimento destes preceitos éticos como do pão para a boca, é não perceber nada. Não perceber que é o nacional-porreirismo do «podia ser pior» ou do «que mal é que faz?» ou do «toda a gente sabe que o homem é sério» que escancara a porta ao populismo das indignações gratuitas, é não perceber nada. Não perceber que não há éticas de primeira vs. de segunda, é não perceber nada.

Resta-me uma dúvida: qual seria a reacção do Pedro Marques ‘O Hans Gruber Ao Pé do Durão Barroso É Um Santo’ Lopes caso se viesse a descobrir que Maria Luís Albuquerque tinha viajado em lazer a expensas do litigante Santander Totta?

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