Obrigado, Edgardo

Edgardo Pacheco, crítico gastronómico do Financial Times (não é nada: é da CMTV), chamou a atenção do óbvio: «a maioria das pessoas [burras!] acha que o azeite é todo igual; o mesmo azeite que usam para temperar uma pescada serve para temperar um cabrito ou serve para temperar uma  mousse» (sic). E acrescenta: «ainda temos um problema mais grave do que esse [não acredito!]: usar o azeite para refogar e depois o mesmo azeite para temperar.» Conclusão: «isto é errado!»

Edgardo Pacheco pôs o dedo na ferida com a frontalidade de uma bola de algodão saturada de álcool 96% vol. (e não essa mariquice da clorexidina.) E fez-me voltar atrás no tempo, como o crítico gastronómico Anton Ego no Ratatui, depois de uma primeira colherada numa ratatoulle supimpa. A um tempo em que contemplava a minha avó Francisca na sua cozinha, rodeada de utensílios vetustos, galinhas degoladas, enchidos não normalizados, ervas aromáticas, facas do Joaquim Franzina e, claro está, quatro frascos distintos com azeite, onde estavam inscritas as directrizes: «pêxe», «chicha», «muce» e «móveis».

O Edgardo sabe muito.

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Product placement

Consta por aí que a entourage do actual primeiro-ministro de Portugal e inefável gerente da já mítica gerigonça, terá contactado Ana Garcia Martins, mais conhecida como «Pipoca Mais Doce» por causa do blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, com o intuito de levar a cabo uma acção de product placement, numa altura em que o Dr. Costa disputava a liderança do PS ao Dr. Seguro.

Para quem não vive neste mundo, o inescapável blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, também conhecida como «Pipoca Mais Doce», promove «estilos de vida» (do inglês lifestyles) através da associação de «vernizes», «sabrinas», «livros», «jóias» e «óculos de sol» (estou a citar as entradas do menu do blogue) a prosa descontraída, pontuada por considerações mais ou menos sérias sobre a vida em geral e o universo em particular.

E que produto, perguntará o anão auditório deste vosso criado, queria a entourage do Dr. Costa «colocar»? Obviamente, o próprio Dr. Costa.

Telegénico, senhor de um invejável currículo de astúcia politiqueira e de exímia queda para a esgrima argumentativa, educado desde tenra idade para intendências políticas de grande fôlego (que lhe conferiu o cognome de «o desejado»), o produto «António Costa» usando panamá Borsalino, mocassins Tod’s e camisa Ermenegildo Zegna à beira de um Porsche 911 cabrio encantaria o povo socialista indefectível do lifestyle (mas ainda sob o feitiço do Dr. Seguro). Lançar-se-ia, en passant, o candidato ideal sobre a demais populaça para que esta, no momento em que fosse convocada a eleger um novo primeiro-ministro, optasse por um candidato avesso ao neoliberalismo, amigos das pessoas e levemente playboy.

Como estratégia: imbatível.

Desgraçadamente, Ana Garcia Martins, também conhecida por «Pipoca Mais Doce» por causa do blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, disse que não. O resultado esteve à vista: uma tareia nas eleições legislativas do candidato Dercos Aminexil.

Felizmente, o Dr. Costa tinha o Certificado de Aptidão Profissional de manobrador de pesados. E dois palermas, perdão, ajudantes de campo.

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Foi o Valter Hugo, mãe!

Consta por aí (não garanto que seja verdade por causa daquela coisa da pós-verdade) que o fantástico Ministério da Educação recomendou um livro do escritor Valter Hugo Mãe para o 3.º Ciclo no Plano Nacional de Leitura, que contém, e passo a citar, «linguagem sexual violenta», facto que escandalizou crianças, pais e um pastor no Fundão.

Vamos a uns excertos:

«E depois fazem amor pelo cu porque não têm racha, enfiam coisas no cu, percebes.»

«E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.»

Que a prosa pueril do senhor Hugo Mãe inspire o fabuloso Ministério da Educação a recomendar a obra a alunos do 3.º Ciclo: compreende-se.

Já não se compreende a escandaleira em torno da «liguagem sexual violenta», que os petizes praticam com especial devoção nos pátios do Snapchat, do WhatsApp e da escola.

O embaraço, aqui, é outro: o de termos chegado a um estágio cultural/intelectual que suscite aos doutores do sensacional Ministério da Educação exaltar escritores e obras desta categoria (esqueçam os excertos, leiam o resto.) E sem o Trump estar envolvido.

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Premonição

A propósito disto, lembrei-me disto:

O world of spring and autumn, birth and dying!

The endless cycle of idea and action,

Endless invention, endless experiment,

Brings knowledge of motion, but not of stillness;

Knowledge of speech, but not of silence;

Knowledge of words, and ignorance of the Word.

All our knowledge brings us nearer to death,

But nearness to death no nearer to God.

Where is the Life we have lost in living?

Where is the wisdom we have lost in knowledge?

Where is the knowledge we have lost in information?

The cycles of Heaven in twenty centuries

Brings us farther from God and nearer to the Dust.

 

in The Rock de T. S. Eliot

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Morreu o Leonard Cohen

Field Commander Cohen, he was our most important spy.
Wounded in the line of duty,
Parachuting acid into diplomatic cocktail parties,
Urging Fidel Castro to abandon fields and castles.
Leave it all and like a man,
Come back to nothing special,
Such as waiting rooms and ticket lines,
Silver bullet suicides,
And messianic ocean tides,
And racial roller-coaster rides
And other forms of boredom advertised as poetry.
I know you need your sleep now,
I know your life’s been hard.
But many men are falling,
Where you promised to stand guard.

I never asked but I heard you cast your lot along with the poor.
But then I overheard your prayer,
That you be this and nothing more
Than just some grateful faithful woman’s favorite singing millionaire,
The patron Saint of envy and the grocer of despair,
Working for the Yankee Dollar.

I know you need your sleep now

Ah, lover come and lie with me, if my lover is who you are,
And be your sweetest self awhile until I ask for more, my child.
Then let the other selves be wrong, yeah, let them manifest and come
Till every taste is on the tongue,
Till love is pierced and love is hung,
And every kind of freedom done, then oh,
Oh my love, oh my love, oh my love,
Oh my love, oh my love, oh my love.

Morreu o Leonard Cohen.

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