Não é por nada

Uma anedota:

Um sobrevivente de Auschwitz morre, chega ao céu e conta a Deus uma anedota sobre o Holocausto. Deus comenta: «Isso não tem piada.» Responde o sobrevivente: «Ah, tinha de ter estado lá.»

Uma notícia:

«O ministro Luís Filipe Castro Mendes considerou que o forte de Peniche trará um “turismo cultural muito importante” e que os números das visitas a este tipo de monumentos mostram que “existe um turismo especializado e que a visita a um Museu da Resistência e da Liberdade terá como é a visita a museus idênticos que há por esse mundo e lugares de memória, desde Auschwitz a outros.”»

Longe de mim sugerir ao senhor ministro da Cultura o mesmo: ter experimentado Auschwitz e Peniche para perceber a diferença (no grau, na natureza, na ordem de grandeza, etc.) Até porque, objectivamente, o senhor ministro não comparou coisíssima nenhuma. Certo. Mas convém não dar ares de leviano. Convém ter algum cuidado com os contextos subjacentes ao que se diz. Não é por nada.

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Miguel Pedro Sousa Marques Lopes Tavares

Agrada-me a divulgação televisiva de interrogatórios judiciais em prime, middling ou off-peak time? Não.

A divulgação dos interrogatórios roça o voyeurismo? Roça.

A divulgação dos interrogatórios constitui o crime? Provavelmente, sim.

Tratando-se de um crime, a divulgação dos interrogatórios, com o devido tratamento jornalístico, pode, ainda assim, justificar-se? Depende do processo e do tratamento jornalístico.

Se estiveram em causa crimes de corrupção e conexos que terão prejudicado a res publica, desprestigiado a classe política e abanado os fundamentos do Estado de Direito, poderá o interesse público, o dever de informação e a liberdade de imprensa, enquanto direitos fundamentais consagrados nos artigos 37.º e 38.º da Constituição da República Portuguesa, sobrepor-se ao direito à reserva da intimidade da vida privada e ao direito à imagem, protegidos constitucionalmente no n.º 1 do artigo 26.º da mesma Constituição? Na qualidade de indigente não-constitucionalista, penso que sim.

Podemos visionar a peça jornalística da SIC e unicamente concluir, ou dela retirar, a existência de uma flagrante e «nojenta» violação do disposto no número 2 do artigo 88.º do Código do Processo Penal? Podemos, da mesma forma que podemos achar que The Love Song of J. Alfred Prufrock é um divertido poema sobre o lamento de um procrastinador que não consegue pedir em casamento a sua amada, na figura de uma overwhelming question; ou que Moby Dick relata as andanças de um baleeiro dirigido por um valente capitão, levemente lelé da cuca; ou que o The Catcher in The Rye é uma comédia sobre um puto de 16 anos que disfarça a queda para o ócio e o enjoo à instrução com supostas perturbações mentais; ou que Bartleby, The Scrivener narra as desventuras de um ardiloso calão.

 

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Se num dia de Primavera um espertalhão

A 6 de Setembro de 2014, a propósito de um evento de exaltação do candidato babush onde o senhor João ‘não consegui à primeira nem à segunda’ Botelho se referiu amiúde «ao Costa e ao Zé Sá Fernandes», escrevi: «a trupe da cóltura ainda não se deu conta de que não vai poder esperar muito do doutor Costa, quando este ocupar o alopécio cargo. A conclusão é trágica: a aritmética não quer nada com a Cultura.»

A 6 de Setembro de 2014, Portugal vivia sob o jugo do terrível doutor Passos Coelho. O doutor Costa, vá-se lá saber porquê, acalentava ganhar as eleições. Na sua triunfal marcha rumo à glória, beberricava na teta da ilusória generosidade da intelligentsia portuguesa, nidificada no Portugal aparente da prodigalidade dissimulada do «político de esquerda». Asinus asinum fricat. Centeno? Ninguém o era. Cativações? Um mistério. Jornada de luta nas matas? Que ideia absurda. Tancos? Uma fortaleza inexpugnável.

Passados três anos, sete meses, uma derrota eleitoral, um regime austeritário transgénero e um novo conceito de carga fiscal, o doutor Costa espantou-se. Vá-se lá saber porquê.

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Facemirror

A vastíssima população humana que investe horas do seu dia-a-dia no Facebook – do hipster que quer dar conta do brunch que lhe esvaziou a carteira e conspurcou a barba, à mãe com o «bebé mais bonito do mundo», passando pela boazona que pela quinquagésima vez avisa estar solteira (leia-se disponível para consumo) durante umas férias em Punta Cana, e acabando nos que às segundas, quartas e sextas denotam horror ao Face (petit nom), mas às terças, quintas e fins-de-semana o utilizam para difundir urgentíssimas convicções ou para encher o ego – espantou-se com o facto de a rede social presidida por uma criança de caracóis ser palco de patifarias de vária ordem, supostamente violadoras do difuso conceito de «privacidade» (difuso no ecossistema facebookiano, entenda-se).

Mal comparado, a coisa equivale a soprar um boato no ouvido de uma comadre coscuvilheira encartada e, no dia seguinte, estofar-se de indignação porque a notícia veio a lume. E repare-se: a culpa nunca ou raramente é da comadre.

Quem procura o recato ou quem tem mais que fazer, estará por esta altura a borrifar-se para o caso e considerará esta polémica uma sonsice pegada. Por uma de duas razões: ou porque convive bem com as «quebras de privacidade» (o pouco que publicou é irrelevante e as investidas das Cambridge Analyticas parecem-lhe risíveis), ou porque pura e simplesmente não põe lá os pés.

Está no ADN do Facebook escancarar existências, na sua generalidade tristes? Não. Está no ácido desoxirribonucleico dos seus utilizadores. Os mesmos que agora se queixam mas não largam o circo. Fim de conversa.

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O que faz falta é animar a malta

Para quem duvidasse da existência de matérias vulneráveis à dúvida não obstante o elevado grau de pureza da irrefutabilidade cientifica, eis a resposta: no grande fórum mundial para a discussão de matérias lusitanas e, en passant, da humanidade (Prós & Contas) debateu-se há semanas a grave «problemática das vacinas».

A única criatura a pôr em causa aquela que é provavelmente a maior história de sucesso da medicina na erradicação (ou redução para níveis, digamos, aceitáveis) de doenças tradicionalmente fatais (a ponto de nos permitir identificar historicamente uma era pré e pós-vacinal pela contagem de milhares de óbitos), fez saber o seguinte: dos cinco filhos que tiveram a sorte de ter um pai terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, a «mais nova» não foi vacinada. Foi uma opção. Isso mesmo: uma opção.

Salvo uma referência a correr por parte de um dos paineleiros, abafada por uma moderadora capturada pelo magnetismo do terapeuta, ninguém pareceu interessado em reparar que a opção de não vacinar um dos filhos por parte do terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, para além de estúpida, assenta no mais ultrajante dos egoísmos: beneficiar da «opção» certa (leiam comigo: v-a-c-i-n-a-r) tomada ao longo do tempo pela esmagadora maioria dos progenitores (actuais e passados), que permite hoje ao terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, e à prole do terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, viver num ambiente epidemiologicamente seguro.

Não vejo, por isso, como poderá o Prós & Contras passar ao lado de um alargado debate sobre o biomagnetismo. Um claro problema de saúde mental pública.

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Agora é que é

Depois de ter ficado «esgotado, mas alegre» com o último livro da trilogia As Areias do Imperador, Mia Couto classifica novo livro como o seu maior desafio enquanto escritor.

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Tudo maluco

O que há a dizer sobre o travel jacket Baubax 2.0 (com espaço para uma garrafa, uma lata, um estojo de óculos, uma caneta Apple, um tablet, uma mantinha, uma almofada insuflável, luvas extensíveis, um par de tampões para os ouvidos e uns auriculares) ou sobre o reMarkable paper tablet (um tablet que replica a sensação de escrever sobre papel, e que se dirige a quem não está na disposição de utilizar um bloco de notas convencional apesar de gostar de escrever num bloco de notas convencional)?

Pela parte que me toca, acho que se justifica uma acção de crowdfunding que venha a materializar a produção de um Shetland tweed com interstício tecnológico nas suas fibras que permita, por aproximação aos alvos, teletransportar nerds, techies, geeks e coninhas para Marte (devidamente apetrechados com os travel jackets, claro.)

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