Morreu o Leonard Cohen

Field Commander Cohen, he was our most important spy.
Wounded in the line of duty,
Parachuting acid into diplomatic cocktail parties,
Urging Fidel Castro to abandon fields and castles.
Leave it all and like a man,
Come back to nothing special,
Such as waiting rooms and ticket lines,
Silver bullet suicides,
And messianic ocean tides,
And racial roller-coaster rides
And other forms of boredom advertised as poetry.
I know you need your sleep now,
I know your life’s been hard.
But many men are falling,
Where you promised to stand guard.

I never asked but I heard you cast your lot along with the poor.
But then I overheard your prayer,
That you be this and nothing more
Than just some grateful faithful woman’s favorite singing millionaire,
The patron Saint of envy and the grocer of despair,
Working for the Yankee Dollar.

I know you need your sleep now

Ah, lover come and lie with me, if my lover is who you are,
And be your sweetest self awhile until I ask for more, my child.
Then let the other selves be wrong, yeah, let them manifest and come
Till every taste is on the tongue,
Till love is pierced and love is hung,
And every kind of freedom done, then oh,
Oh my love, oh my love, oh my love,
Oh my love, oh my love, oh my love.

Morreu o Leonard Cohen.

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So long, Mariana

Devemos a Mariana Mortágua o momento mais franco e ternurento da política portuguesa dos últimos anos. A clareza e a franqueza chegaram-nos pelo verbo: «devemos perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro». A ternura pôde ser observada na forma como alguns socialistas (sobretudo os afectos à juventude turca) tentaram acalmar as hostes: «calma, amiguinhos, isto pode ser explicado.»

As coisas são o que são. A voz delicodoce, o olhar arguto e o sorriso monalisiano de Mariana Mortágua parecem num primeiro momento consolar a nossa inquietação perante as injustiças do mundo, mas uma vez debitado, o ideário Mortágua desengana os menos incautos. Tudo é claro, límpido, inequívoco: estamos perante uma gema marxista, impenetrável e inflexível.

Imaginar uma conversa com Mariana Mortágua sobre teorias de propriedade ou diferentes concepções de justiça distributiva – dos princípios «históricos» aos de «resultado final» dissecados por Nozick, passando pela teoria da aquisição de Locke e por aí fora  – resultaria numa pequena e certamente divertida representação teatral do absurdo, com o bom senso e o consenso no papel de Godot.

No mundo de Mariana não interessa saber como, em que circunstâncias (por exemplo, se o «acumulador» já percorreu uma fileira sacra de tributos), quando e quem acumulou «dinheiro»: quem o fez, fê-lo certamente à custa de outrem. 1 € ganho por A significou 1 € perdido por ou roubado a B. A «acumulação» será sempre senão ilícita, no mínimo injustificável e imoral, contrária à consumação do preceito-mor: de cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades.

É no mais central, distinto e chique bairro do seu cérebro que Mariana preserva e mantém intacta a sua cosmovisão do mundo, habitada pelos bibelôs marxistas da praxe: a infraestrutura e a super-estrutura; o lucro (a vil essência do capitalismo); as teorias do valor, salário e da mais-valia; a taxa de lucro e a sua relação com a composição orgânica do capital (capital variável vs. constante); as proposições referentes à proletarização e à pauperização, demonstrativas do devir auto-destrutivo do regime capitalista; e por aí fora.

Do alto dos seus Converse All Stars, Mariana acredita piamente que o capitalismo tenderá para a cristalização das relações sociais em dois únicos grupos: capitalistas (também conhecidos no mundo de Mariana como «acumuladores») e proletários (os alienados e miseráveis). As classes intermédias jamais terão iniciativa nem dinamismo histórico – como, aliás, profetizava Marx.

Mas ao contrário de Marx, para quem o poder político e o Estado eram os meios pelos quais a classe dominante («acumuladora») mantinha a sua dominação e exploração sobre o proletariado (logo, entidades a abater), Mariana Mortágua acredita que não será necessário suprimi-los, antes apetrechá-los de um exército de justos e «corajosos» (do qual ela faz indubitavelmente parte) que não terão vergonha alguma em «retirar dinheiro a quem acumula.»

Que Mariana Mortágua seja isto, não me surpreende. Que o PS caucione estas intervenções, já me causa alguma estranheza. Ou não passo eu de um incorrigível ingénuo.

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Tudo isto é triste, tudo isto é fado

Tales de Mileto acreditava que a água era o elemento fundamental do mundo, de onde tudo provinha e para onde tudo caminhava; Anaximandro, consciente da vastidão e do carácter incognoscível do Universo, defendia a ideia de que as coisas observáveis tinham origem num permanente estado de conflito entre elementos de sentido oposto (o dia e a noite, o frio e o calor, a humidade e a aridez) com o «tempo» no papel de árbitro (e expondo, en passant, a intrincada e divertidíssima história do nascimento do cosmos envolvendo uma espécie de ovo que evoluía para uma massa fria e húmida envolta num anel de fogo); Anaxímenes colocava todas as suas fichas na ideia de que a condensação e a rarefacção causadas pela deslocação do ar constituíam o motor do mundo: as nuvens, as árvores, as rochas, etc seriam variações no grau de concentração do ar.

Dois mil e quinhentos anos depois, o pós-socrático engenheiro Sócrates não tem caminhos para desbravar, nem jónios para pastorear. É razoável supor-se que na primária de Vilar de Maçada, na secundária da Covilhã, no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra ou de Lisboa, o engenheiro tenha travado conhecimento com noções básicas de química, física e astronomia que o impeçam, hoje, de especular e arriscar como os pré-socráticos. Como é próprio dos espertos, restou-lhe alicerçar todo o seu pensamento filosófico no trabalho de outros (antes Kant, agora Weber, sempre em modo simplista) coadjuvado pela infinita força motriz da estupidez humana, capaz de colocar ao seu serviço um particular exército de figurinhas mais ou menos grotescas (do fidelíssimo André Figueiredo, ao inefável Mário Lino) e mais ou menos anónimas, prontas a compor o ramalhete e a animar o arraial. Louvada seja a impreparação dos jornalistas e entrevistadores que ainda se interessam pela coisa, louvada seja a rede viária interior-capital, capaz de proporcionar rapidez e segurança à frota de autocarros fretados (supõe-se que com as revisões em dia.)

«O Dom Profano – Considerações sobre o carisma» é, obviamente, mais um exercício de egocentrismo (tentem adivinhar em que líder carismático estaria ele a pensar), sem ponta de originalidade, a meio caminho entre a megalomania intelectual de uma mente medíocre e a vaidade incontrolável de um homem que perdeu a noção do ridículo e que julga ser capaz de sair do profundíssimo abismo em que caiu com a ajuda das lombadas dos livros que vai publicando enquanto auto-proclamado sage. Porque o tempo urge e a vida é profanamente finita, aconselho fonte 30pt, espaçamento triplo, papel de 250gr e a contratação de mais duzentos «revisores.»

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There are no more beginnings

A única coisa a lamentar da minha presença no concerto do Bruno Pernadas, anteontem, no Teatro Maria Matos, foi o facto de não me encontrar na condição de virgem. Sabia mais ou menos ao que ia. Invejo, por isso, os que, pela primeira vez, entraram numa sala de espectáculos desconhecendo a The Bruno Pernadas Experience, circunstância irrepetível para apreciar, em todo o seu esplendor, o soco no estômago que constitui aquela wall of sound. Um caso muito sério de talento, trabalho e engenho.

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Receita contra a doença moral chamada susto que eles voltem

Roubo o título a um folheto distribuído em 1808, aquando da primeira invasão francesa, com o intuito de levantar a moral da população, exortando o povo a resistir. Era este o tom: Napoleão poderia tentar aniquilar exércitos, mas jamais conseguiria combater povos. Na prática, a publicação partia da constatação de que as forças napoleónicas estariam a perder força dada a dispersão de meios entre Portugal e Espanha, circunstância que precipitou a intervenção britânica.

Aterrando no Portugal de 2016, constatamos que as máquinas de propaganda envelheceram muito pouco. As três (da geringonça) têm estado incansáveis em fazer passar uma ideia simples: a esquerda unida expulsou a armada neoliberal europeia que, por interpostas pessoas num governo fantoche, havia invadido um povo bravo e um país lindo, destruindo gratuitamente lares, empregos e feriados.

Passos Coelho passou a ser retratado como um velho, cansado e rancoroso Junot, incapaz de aceitar a derrota e empenhado num cassandrismo bacoco e agoirento, próprio de quem gostaria que o «tempo voltasse para trás» (jamais!). A Europa desceu ao estatuto de fonte de todos os males (até o combate aos incêndios nos dificultou.)

Não foi por acaso que o dr. Costa tratou de nutrir apressada e augustamente o seu eleitor-alvo predilecto (o funcionário público), nem foi por acaso que o dr. Costa chamou para o seu aconchego o sr. Arménio Carlos e o sr. Nogueira, esse par de camélias zeladoras dos interesses económicos, profissionais e fisiológicos do eleitor-alvo predilecto do dr. Costa (outra vez: o funcionário público.)

Falhada a tentativa, em plena campanha eleitoral, de conduzir o povo a um estado de sensibilidade patológica de onde sairia um babush feito santo e salvador (o homem perdeu estrondosamente as eleições), foi chegada a hora, no pós-arranjo eleitoral, de tratar do futuro – um futuro que é próximo mas nebuloso, como parece atestar o fiasco do cenário macroeconómico imaginado e partejado, no longínquo mês de Abril de 2015, por um conjunto de peritos que insiste em pastorear a ralé como se nada tivesse acontecido.

Em suma: afastados os «monstros», tratou-se de restabelecer a ordem natural das coisas (em consonância com o regresso ao poder do partido natural português), com a narrativa da «idade das trevas» pré-geringoncial ao rubro.

As últimas sondagens parecem dar conta conta de um crescimento imanente, embora ignoto, da base de apoio da cooperativa, capaz de fazer vibrar as hostes. Vivemos, por isso, um tempo idealista e ideal. Ideal, por exemplo, para falar de «escalões» e para acomodar critérios de «justiça fiscal.» As contas estão feitas: o povo está tenrinho e os «ricos» pagarão a crise.

Viva Portugal!

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O respeitinho é muito bonito, e isto das instituições tem muito que se lhe diga

O episódio «perdoe-me dr. Castro Mendes, não sei onde estava com a cabeça» foi prodigioso. Estão lá todos os tesourinhos deprimentes que nos animam e salvam da modorra de um país normal: a pré-punitiva estupefacção pública do senhor ministro face ao atrevimento do funcionário; a subserviência do senhor director vertida numa cartinha acabrunhada em que o excesso de auto-justificação denuncia o mandante; o aplauso dos que, «como é evidente», viram no episódio um caso «óbvio» de «desrespeito» e de «quebra de lealdade», a exigir penitência; e, por fim, o gesto magnânimo do patrão, que lá tolerou a traquinice e manteve o assalariado no cargo. Uma delicia.

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