Se num dia de Primavera um espertalhão

A 6 de Setembro de 2014, a propósito de um evento de exaltação do candidato babush onde o senhor João ‘não consegui à primeira nem à segunda’ Botelho se referiu amiúde «ao Costa e ao Zé Sá Fernandes», escrevi: «a trupe da cóltura ainda não se deu conta de que não vai poder esperar muito do doutor Costa, quando este ocupar o alopécio cargo. A conclusão é trágica: a aritmética não quer nada com a Cultura.»

A 6 de Setembro de 2014, Portugal vivia sob o jugo do terrível doutor Passos Coelho. O doutor Costa, vá-se lá saber porquê, acalentava ganhar as eleições. Na sua triunfal marcha rumo à glória, beberricava na teta da ilusória generosidade da intelligentsia portuguesa, nidificada no Portugal aparente da prodigalidade dissimulada do «político de esquerda». Asinus asinum fricat. Centeno? Ninguém o era. Cativações? Um mistério. Jornada de luta nas matas? Que ideia absurda. Tancos? Uma fortaleza inexpugnável.

Passados três anos, sete meses, uma derrota eleitoral, um regime austeritário transgénero e um novo conceito de carga fiscal, o doutor Costa espantou-se. Vá-se lá saber porquê.

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Facemirror

A vastíssima população humana que investe horas do seu dia-a-dia no Facebook – do hipster que quer dar conta do brunch que lhe esvaziou a carteira e conspurcou a barba, à mãe com o «bebé mais bonito do mundo», passando pela boazona que pela quinquagésima vez avisa estar solteira (leia-se disponível para consumo) durante umas férias em Punta Cana, e acabando nos que às segundas, quartas e sextas denotam horror ao Face (petit nom), mas às terças, quintas e fins-de-semana o utilizam para difundir urgentíssimas convicções ou para encher o ego – espantou-se com o facto de a rede social presidida por uma criança de caracóis ser palco de patifarias de vária ordem, supostamente violadoras do difuso conceito de «privacidade» (difuso no ecossistema facebookiano, entenda-se).

Mal comparado, a coisa equivale a soprar um boato no ouvido de uma comadre coscuvilheira encartada e, no dia seguinte, estofar-se de indignação porque a notícia veio a lume. E repare-se: a culpa nunca ou raramente é da comadre.

Quem procura o recato ou quem tem mais que fazer, estará por esta altura a borrifar-se para o caso e considerará esta polémica uma sonsice pegada. Por uma de duas razões: ou porque convive bem com as «quebras de privacidade» (o pouco que publicou é irrelevante e as investidas das Cambridge Analyticas parecem-lhe risíveis), ou porque pura e simplesmente não põe lá os pés.

Está no ADN do Facebook escancarar existências, na sua generalidade tristes? Não. Está no ácido desoxirribonucleico dos seus utilizadores. Os mesmos que agora se queixam mas não largam o circo. Fim de conversa.

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O que faz falta é animar a malta

Para quem duvidasse da existência de matérias vulneráveis à dúvida não obstante o elevado grau de pureza da irrefutabilidade cientifica, eis a resposta: no grande fórum mundial para a discussão de matérias lusitanas e, en passant, da humanidade (Prós & Contas) debateu-se há semanas a grave «problemática das vacinas».

A única criatura a pôr em causa aquela que é provavelmente a maior história de sucesso da medicina na erradicação (ou redução para níveis, digamos, aceitáveis) de doenças tradicionalmente fatais (a ponto de nos permitir identificar historicamente uma era pré e pós-vacinal pela contagem de milhares de óbitos), fez saber o seguinte: dos cinco filhos que tiveram a sorte de ter um pai terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, a «mais nova» não foi vacinada. Foi uma opção. Isso mesmo: uma opção.

Salvo uma referência a correr por parte de um dos paineleiros, abafada por uma moderadora capturada pelo magnetismo do terapeuta, ninguém pareceu interessado em reparar que a opção de não vacinar um dos filhos por parte do terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, para além de estúpida, assenta no mais ultrajante dos egoísmos: beneficiar da «opção» certa (leiam comigo: v-a-c-i-n-a-r) tomada ao longo do tempo pela esmagadora maioria dos progenitores (actuais e passados), que permite hoje ao terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, e à prole do terapeuta do biomagnetismo que lê estudos, viver num ambiente epidemiologicamente seguro.

Não vejo, por isso, como poderá o Prós & Contras passar ao lado de um alargado debate sobre o biomagnetismo. Um claro problema de saúde mental pública.

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Agora é que é

Depois de ter ficado «esgotado, mas alegre» com o último livro da trilogia As Areias do Imperador, Mia Couto classifica novo livro como o seu maior desafio enquanto escritor.

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Tudo maluco

O que há a dizer sobre o travel jacket Baubax 2.0 (com espaço para uma garrafa, uma lata, um estojo de óculos, uma caneta Apple, um tablet, uma mantinha, uma almofada insuflável, luvas extensíveis, um par de tampões para os ouvidos e uns auriculares) ou sobre o reMarkable paper tablet (um tablet que replica a sensação de escrever sobre papel, e que se dirige a quem não está na disposição de utilizar um bloco de notas convencional apesar de gostar de escrever num bloco de notas convencional)?

Pela parte que me toca, acho que se justifica uma acção de crowdfunding que venha a materializar a produção de um Shetland tweed com interstício tecnológico nas suas fibras que permita, por aproximação aos alvos, teletransportar nerds, techies, geeks e coninhas para Marte (devidamente apetrechados com os travel jackets, claro.)

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The dude abides

O doutor António Mendonça Mendes é um homem feliz. Como homem feliz, transpira, entre outras coisas, tranquilidade. O ar cândido com que disse «nós nem temos de deixar tudo para a última hora nem temos de utilizar tudo no primeiro dia, temos de utilizar ao longo do tempo» (uma frase, desde logo, a roçar prazenteiramente o ininteligível) evidencia uma atitude despreocupada perante a vida em geral, e as intendências que lhe foram parar ao colo em particular.

O facto do Estado levar cerca de seis meses a acertar as contas com os contribuintes, retendo dinheiro que não lhe pertence, não o comove. Estou, aliás, em crer que o doutor António Mendonça Mendes toma o exercício como um divertimento: que razões levam os velhacos dos contribuintes a querer submeter o mais rapidamente possível «o modelo três»? No conforto do seu duplex respaldado com o ordenadinho que os apressados lhe pagam, o doutor António Mendonça Mendes coloca todas as hipóteses: será avareza, mesquinhez, gulodice, obsessão com portais, existências vazadas? Um passatempo encantador.

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Deus salve os nossos governantes

A acção de limpeza das matas que mobilizou todo o governo de Portugal, foi uma aposta ganha. Veio ratificar a ideia de que o espírito colectivo substitui o critério moral (e abstracto) pelo critério histórico, o qual tem por base a consagração dos factos consumados. A difusão de imagens pela espectacular TDT, foi determinante. Nada ficou como dantes. A história é recente, mas é história. E factos são factos.

O senhor Tomé Azevedo, habitante de Nespereira (Cinfães), viúvo, reformado e proprietário de uma courela herdada, não conseguiu conter o vigor reactivo que a imagem do doutor Castro Mendes, actualmente a debater-se com uma ciática excruciante, lhe provocou. «Ver o senhor ministro a pôr comida na boca de uma ovelha, tocou-me. Foi poético. Daí a limpar as matas, foi um passo», relata o senhor Tomé, derrubando inadvertidamente a chávena de chá de ameixa preta que o congestionamento do seu particular IC19 tem ultimamente recomendado, dada a constante excitação em que tem andado.

Também Alberto Morais, residente em Mouraz, gerente de uma taberna em Vila Nova da Rainha e de dois pubs na zona metropolitana de Tondela, conhecido na região como o «Manuel Reis das Beiras» pelo incansável e desinteressado trabalho de dinamização nocturna e cultural levado a cabo na década de 90 (no virar do século veio a dedicar-se à pastorícia dada a experiência adquirida), não resistiu ao visionamento do doutor Costa de gadanha hi-tech na mão e camuflado xadrez no tronco: em poucos minutos, reuniu as ferramentas e atacou o matagal.

Ofélia Brites e Julieta Brites, irmãs e eternas solteiras de Unhais-o-Velho, há anos entregues ao sono bestial do enfartamento senil, não acreditaram, num primeiro momento, no que estavam a ver. Mas depressa se convenceram: a doutora Van Dunen amanhava o silvado como há muito não se via. Pela subtileza competente dos gestos, logo ali perscrutaram a imagem da saudosa mãe, grande referência moral que as ensinou, entre outras coisas, a dissuadir as investidas do macho-alfa pela permanência do buço. Em poucas horas, reuniram a vizinhança (duas cabras) e rumaram aos terrenos.

Mais a sul, o testemunho de Bernardino Quarenta não deixa margem para dúvidas. Ele e a mulher, Josefa Tirapicos, que em tempos ficou conhecida na região por ter cantado uma modinha aos microfones da TSF, num dos périplos do grande Fernando Alves pelas profundezas da pátria, andavam desmotivados, acabrunhados – nas palavras do próprio: assacanados. Septuagenários, vivem num monte no sopé da Serra d’Ossa isolados do mundo, apesar da luxuriante companhia de uma pensão de reforma a bater os trezentos e cinquenta euros. Não fosse a leitura, há cerca de dois anos, do Alentejo Prometido, magnus opus de Henrique Raposo oferecido por um dos filhos na concorrida visita bienal à casa dos pais, provavelmente já não estariam do lado de cá. Mas a vida continuava a oferecer resistências. A reportagem da equipa ministerial a limpar matas, foi um game changer. A palavra ao senhor Bernardino: «Lembro-me de ter dito à minha Zefa: porra, mulher, do que é que estamos à espera!? Andamos p’rá ‘qui aos caídos e os nossos governantes naquele esforço… Pega já nas enxadas, ca****!» Reencontraram o sentido da vida.

Na Bemposta, junto a Odemira, Amândio Saturnino, mais conhecido pela alcunha «o pilha-galinhas», pensionista de vocação e avicultor por opção, proprietário de uma herdade com 0,01 hectares onde residia rodeado de arvoredo desgovernado, ficou agradavelmente perplexo. «Ver o altruísmo daquela gente foi para mim uma inspiração. Chorei como há muito não chorava. Até assustei os cães.» A estratégia do senhor Amândio foi mista e aguçada: para além do esforço de braços, soltou os galináceos e armou-os sapadores. Serviço limpinho.

No Algarve, em Marmelete (perto de Monchique), o tumulto alastrou-se a diversas habitações. Em pouco mais de meia-hora, uma dúzia de pequenos agricultores, mas grandes rústicos, juntou-se no adro da igreja, envergando tochas, foices, dois exemplares da Constituição da República Portuguesa e uma Bíblia. Imolou-se um gato – ritual bastante apreciado na região – e gritou-se «Às matas!» Não sobrou um tufo para contar a história.

Mais a leste, em Balurcos, a sul do Parque Natural do Vale do Guadiana, o testemunho de Felizarda Mortágua, 68 anos, é ilustrativo: «Lembro-me perfeitamente daquele dia: tinha acabado de montar o televisor 4k com ligação à internet. Eu e o meu marido ficámos atónitos, mas ainda do que é habitual com a CMTV. Ainda pensámos que fosse do efeito da qualidade da imagem, que o 4k é uma maravilha. Mas não. Ficámos, de imediato, motivadíssimos. O meu marido até me disse ‘vês como se faz, Felizarda?’ ao que respondi, meio envergonhada, ‘não fazia ideia, Manel’. Como diz o povo, e com razão: nunca é tarde para aprender.» É comummente aceite na aldeia que o dia 24 de Março marcou as vidas de quem ali mora. Há uma petição para o tornar feriado.

Não há como menosprezar o domínio do «simbólico» e o poder da «comunicação». Se vos disseram que é reles propaganda (descarada, inútil, dispendiosa), não acreditem. E não liguem: estarão na presença de inorgânicos.

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