There are no more beginnings

A única coisa a lamentar da minha presença no concerto do Bruno Pernadas, anteontem, no Teatro Maria Matos, foi o facto de não me encontrar na condição de virgem. Sabia mais ou menos ao que ia. Invejo, por isso, os que, pela primeira vez, entraram numa sala de espectáculos desconhecendo a The Bruno Pernadas Experience, circunstância irrepetível para apreciar, em todo o seu esplendor, o soco no estômago que constitui aquela wall of sound. Um caso muito sério de talento, trabalho e engenho.

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Receita contra a doença moral chamada susto que eles voltem

Roubo o título a um folheto distribuído em 1808, aquando da primeira invasão francesa, com o intuito de levantar a moral da população, exortando o povo a resistir. Era este o tom: Napoleão poderia tentar aniquilar exércitos, mas jamais conseguiria combater povos. Na prática, a publicação partia da constatação de que as forças napoleónicas estariam a perder força dada a dispersão de meios entre Portugal e Espanha, circunstância que precipitou a intervenção britânica.

Aterrando no Portugal de 2016, constatamos que as máquinas de propaganda envelheceram muito pouco. As três (da geringonça) têm estado incansáveis em fazer passar uma ideia simples: a esquerda unida expulsou a armada neoliberal europeia que, por interpostas pessoas num governo fantoche, havia invadido um povo bravo e um país lindo, destruindo gratuitamente lares, empregos e feriados.

Passos Coelho passou a ser retratado como um velho, cansado e rancoroso Junot, incapaz de aceitar a derrota e empenhado num cassandrismo bacoco e agoirento, próprio de quem gostaria que o «tempo voltasse para trás» (jamais!). A Europa desceu ao estatuto de fonte de todos os males (até o combate aos incêndios nos dificultou.)

Não foi por acaso que o dr. Costa tratou de nutrir apressada e augustamente o seu eleitor-alvo predilecto (o funcionário público), nem foi por acaso que o dr. Costa chamou para o seu aconchego o sr. Arménio Carlos e o sr. Nogueira, esse par de camélias zeladoras dos interesses económicos, profissionais e fisiológicos do eleitor-alvo predilecto do dr. Costa (outra vez: o funcionário público.)

Falhada a tentativa, em plena campanha eleitoral, de conduzir o povo a um estado de sensibilidade patológica de onde sairia um babush feito santo e salvador (o homem perdeu estrondosamente as eleições), foi chegada a hora, no pós-arranjo eleitoral, de tratar do futuro – um futuro que é próximo mas nebuloso, como parece atestar o fiasco do cenário macroeconómico imaginado e partejado, no longínquo mês de Abril de 2015, por um conjunto de peritos que insiste em pastorear a ralé como se nada tivesse acontecido.

Em suma: afastados os «monstros», tratou-se de restabelecer a ordem natural das coisas (em consonância com o regresso ao poder do partido natural português), com a narrativa da «idade das trevas» pré-geringoncial ao rubro.

As últimas sondagens parecem dar conta conta de um crescimento imanente, embora ignoto, da base de apoio da cooperativa, capaz de fazer vibrar as hostes. Vivemos, por isso, um tempo idealista e ideal. Ideal, por exemplo, para falar de «escalões» e para acomodar critérios de «justiça fiscal.» As contas estão feitas: o povo está tenrinho e os «ricos» pagarão a crise.

Viva Portugal!

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O respeitinho é muito bonito, e isto das instituições tem muito que se lhe diga

O episódio «perdoe-me dr. Castro Mendes, não sei onde estava com a cabeça» foi prodigioso. Estão lá todos os tesourinhos deprimentes que nos animam e salvam da modorra de um país normal: a pré-punitiva estupefacção pública do senhor ministro face ao atrevimento do funcionário; a subserviência do senhor director vertida numa cartinha acabrunhada em que o excesso de auto-justificação denuncia o mandante; o aplauso dos que, «como é evidente», viram no episódio um caso «óbvio» de «desrespeito» e de «quebra de lealdade», a exigir penitência; e, por fim, o gesto magnânimo do patrão, que lá tolerou a traquinice e manteve o assalariado no cargo. Uma delicia.

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Let’s keep it quiet

«O ex-presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro português vai perder os “privilégios de passadeira vermelha” em Bruxelas e vai passar a ser tratado como os restantes lobistas.» Ou seja: com privilégios de passadeira vermelha.

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Contagem de portugueses:_____

Miguel Sousa Tavares está apreensivo: as diatribes de Durão Barroso no Goldman Sachs podem prejudicar a candidatura de António Guterres. Como? Simples e óbvio: da mesma forma que «uma» Telma Monteiro representa toda uma nação na glória, Durão Barroso aglutina toda uma nação na merda. No estrangeiro – lugar longínquo e mítico – um português não é um português: é um país, um povo e um pastel de nata. Alguém devia estudar isto, na medida em que talvez encontre aqui a razão do falhanço colectivo em inscrever mais e melhores portugueses nas galerias da Academia Real das Ciências da Suécia ou nos interstícios do Comité Olímpico Internacional: na hora de todas as decisões, a pressão é tamanha que a alma mingua e, com ela, os músculos, o cérebro, a ética e o jeito. Só problemas.

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Flor de obsessão

Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf
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O Rio de Janeiro continua lindo

Vai longo o seriado de meretrício intelectual que a generalidade da nossa intelligentsia esquerdista, num tom ora pesaroso, ora indignado, decidiu levar à cena sob a batuta do samba Dilma, querida, que golpada, hein?

A argumentação atingiu um nível que tolera bem o epíteto «medíocre», oscilando entre o condescendente «ora, ora, no passado todos fizeram o mesmo», o diferenciador «os que a acusam são piores do que ela» e o absolvidor «o que Dilma fez não é crime.» O corolário deste arrazoado barato seria, na prática, aceitar como admissível mascarar as contas públicas de um país («punível» única e politicamente nas urnas) e bloquear todo e qualquer processo de impeachment enquanto subsistisse nos hemiciclos uma percentagem (a fixar em portaria) de congressistas ou senadores indiciados por corrupção.

Parece não valer a pena lembrar que o PT foi o campeão dos pedidos de impeachment; que este processo, como os anteriores, seguiu escrupulosamente as regras constitucionais (não houve golpe coisíssima nenhuma); que muitos dos que, agora, «desculpam» Dilma, são os mesmos que, no passado, rasgaram as vestes quando um longo consolado de governos «neoliberais» ou «pseudo-socialistas» gregos, fizeram o mesmo com a ajuda da Goldman Sachs; muito menos reforçar que o impeachment é um instrumento político que serve para apurar a responsabilidade, por grave delito ou má conduta no exercício de funções, de quem desempenha altos cargos da nação (não exige, nunca exigiu, um crime de sangue ou um outro qualquer enquadrável numa «moldura penal»). E será totalmente inconsequente sugerir que este processo pode vir a ser vital na composição de um esquisso de consciência ética que contribua para estancar a sem-vergonhice de uma casta de políticos que pelo voto se acham legitimados em recorrer a qualquer meio para alcançar os seus fins.

Para desempoeirar o ambiente e deitar abaixo as grilhetas que impedem diálogos abertamente francos, devíamos escolher a verdade em detrimento de uma confortável omissão: a de estarmos na presença de um prosaico caso de trincheira ideológica. Se Dilma fosse uma Maria Luis Albuquerque «neoliberal», pró-germânica e amiga do «rodinhas nazi», a esquerda em peso estaria vergada à infinita rectidão, legalidade e justiça do instituto do impeachment.

Será o sr. Temer de outra estirpe? Talvez não. Com ou sem Dilma, esta discussão é, acima de tudo, fútil. É óbvio que o impeachment não salvou o Brasil de nada. Mas teve o (pequeno) mérito de fazer abanar uma cultura política que há muito deixou aninhar no seu colo o compadrio, o amiguismo, as relações malsãs entre o poder político e o poder económico, com o PT na vanguarda desta perversão.

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