O nosso Bobby Fischer

A vastíssima multidão de simpatizantes da solução governativa formalmente conhecida como «geringonça», não cabe em si de contente com a aparente solidez da dita. Nada parece perturbar a agremiação liderada pelo dr. António ‘Pangloss’ Costa. Por alturas do caso «Olá, sou secretário de Estado e tenho um cartão Galp Milhas», houve gente que não escondeu o gozo íntimo decorrente do visionamento das reacções cândidas (para não reputar de fofinhas) de Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. «Alô, alô Vidigueira: estão no papo!»

Subjaz a esta satisfação uma ideia que tem vindo a instalar-se no comentarismo indígena, certificada por politólogos, doutores de Coimbra e exóticos do ISCTE: a de que o dr. António Costa é uma grande cabeça e um estratega gigante. Uma versão moderna e rasteira do argumento ontológico de Anselmo: o dr. Costa é um grande estratega pelo facto de termos formulado a ideia de que o dr. Costa é um grande estratega.

Vítor Matos, em artigo publicado no Observador, chega mesmo a observar que o «mestre» disputa cinco partidas em simultâneo. Vindo de um jornalista habitualmente arguto e quase sempre sensato,  esta perspectiva diz muito da vitalidade da imagética laudatória entretanto produzida.

Não quero, de modo algum, melindrar ou pôr em causa a percepção dos justos. Daí que me disponha, desde já, a pedir desculpas pelo que se segue: onde o Vítor Matos vê um xadrezista notável, eu vejo um hábil malabarista (que jurou cumprir a promessa de não aumentar impostos, aumentado…er… impostozinhos); onde uns vislumbram a arte da grande estratégia, eu vislumbro um talento muito particular para o oportunismo político  (não é qualquer um que, em poucas semanas, passa de estrondoso vencido a primeiro-ministro de um país); onde outros observam espírito ecuménico e capacidade conciliadora, eu vislumbro queda para a celebração de negociatas partidárias impregnadas de um tacticismo que os despudorados flic-flacs à rectaguarda da dupla Martins & Sousa provam à saciedade. Aproveito, aliás, para assinalar o excelente contributo das alterações politico-comportamentais de Martins & Sousa para a credibilidade da política portuguesa e para a saúde da espinha dorsal das personagens em causa.

Vasco Pulido Valente cunhou a expressão «geringonça». Relembro outra, forjada por Sousa Bandeira, que se adequaria na perfeição ao que se observa: «pastel.»

Um pasteleiro queria
Fabricar um pastelão
E porque tinha de nada
Deu-lhe o nome de fusão

A acompanhar com cavaquinho e reco-reco.

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