Deus salve os nossos governantes

A acção de limpeza das matas que mobilizou todo o governo de Portugal, foi uma aposta ganha. Veio ratificar a ideia de que o espírito colectivo substitui o critério moral (e abstracto) pelo critério histórico, o qual tem por base a consagração dos factos consumados. A difusão de imagens pela espectacular TDT, foi determinante. Nada ficou como dantes. A história é recente, mas é história. E factos são factos.

O senhor Tomé Azevedo, habitante de Nespereira (Cinfães), viúvo, reformado e proprietário de uma courela herdada, não conseguiu conter o vigor reactivo que a imagem do doutor Castro Mendes, actualmente a debater-se com uma ciática excruciante, lhe provocou. «Ver o senhor ministro a pôr comida na boca de uma ovelha, tocou-me. Foi poético. Daí a limpar as matas, foi um passo», relata o senhor Tomé, derrubando inadvertidamente a chávena de chá de ameixa preta que o congestionamento do seu particular IC19 tem ultimamente recomendado, dada a constante excitação em que tem andado.

Também Alberto Morais, residente em Mouraz, gerente de uma taberna em Vila Nova da Rainha e de dois pubs na zona metropolitana de Tondela, conhecido na região como o «Manuel Reis das Beiras» pelo incansável e desinteressado trabalho de dinamização nocturna e cultural levado a cabo na década de 90 (no virar do século veio a dedicar-se à pastorícia dada a experiência adquirida), não resistiu ao visionamento do doutor Costa de gadanha hi-tech na mão e camuflado xadrez no tronco: em poucos minutos, reuniu as ferramentas e atacou o matagal.

Ofélia Brites e Julieta Brites, irmãs e eternas solteiras de Unhais-o-Velho, há anos entregues ao sono bestial do enfartamento senil, não acreditaram, num primeiro momento, no que estavam a ver. Mas depressa se convenceram: a doutora Van Dunen amanhava o silvado como há muito não se via. Pela subtileza competente dos gestos, logo ali perscrutaram a imagem da saudosa mãe, grande referência moral que as ensinou, entre outras coisas, a dissuadir as investidas do macho-alfa pela permanência do buço. Em poucas horas, reuniram a vizinhança (duas cabras) e rumaram aos terrenos.

Mais a sul, o testemunho de Bernardino Quarenta não deixa margem para dúvidas. Ele e a mulher, Josefa Tirapicos, que em tempos ficou conhecida na região por ter cantado uma modinha aos microfones da TSF, num dos périplos do grande Fernando Alves pelas profundezas da pátria, andavam desmotivados, acabrunhados – nas palavras do próprio: assacanados. Septuagenários, vivem num monte no sopé da Serra d’Ossa isolados do mundo, apesar da luxuriante companhia de uma pensão de reforma a bater os trezentos e cinquenta euros. Não fosse a leitura, há cerca de dois anos, do Alentejo Prometido, magnus opus de Henrique Raposo oferecido por um dos filhos na concorrida visita bienal à casa dos pais, provavelmente já não estariam do lado de cá. Mas a vida continuava a oferecer resistências. A reportagem da equipa ministerial a limpar matas, foi um game changer. A palavra ao senhor Bernardino: «Lembro-me de ter dito à minha Zefa: porra, mulher, do que é que estamos à espera!? Andamos p’rá ‘qui aos caídos e os nossos governantes naquele esforço… Pega já nas enxadas, ca****!» Reencontraram o sentido da vida.

Na Bemposta, junto a Odemira, Amândio Saturnino, mais conhecido pela alcunha «o pilha-galinhas», pensionista de vocação e avicultor por opção, proprietário de uma herdade com 0,01 hectares onde residia rodeado de arvoredo desgovernado, ficou agradavelmente perplexo. «Ver o altruísmo daquela gente foi para mim uma inspiração. Chorei como há muito não chorava. Até assustei os cães.» A estratégia do senhor Amândio foi mista e aguçada: para além do esforço de braços, soltou os galináceos e armou-os sapadores. Serviço limpinho.

No Algarve, em Marmelete (perto de Monchique), o tumulto alastrou-se a diversas habitações. Em pouco mais de meia-hora, uma dúzia de pequenos agricultores, mas grandes rústicos, juntou-se no adro da igreja, envergando tochas, foices, dois exemplares da Constituição da República Portuguesa e uma Bíblia. Imolou-se um gato – ritual bastante apreciado na região – e gritou-se «Às matas!» Não sobrou um tufo para contar a história.

Mais a leste, em Balurcos, a sul do Parque Natural do Vale do Guadiana, o testemunho de Felizarda Mortágua, 68 anos, é ilustrativo: «Lembro-me perfeitamente daquele dia: tinha acabado de montar o televisor 4k com ligação à internet. Eu e o meu marido ficámos atónitos, mas ainda do que é habitual com a CMTV. Ainda pensámos que fosse do efeito da qualidade da imagem, que o 4k é uma maravilha. Mas não. Ficámos, de imediato, motivadíssimos. O meu marido até me disse ‘vês como se faz, Felizarda?’ ao que respondi, meio envergonhada, ‘não fazia ideia, Manel’. Como diz o povo, e com razão: nunca é tarde para aprender.» É comummente aceite na aldeia que o dia 24 de Março marcou as vidas de quem ali mora. Há uma petição para o tornar feriado.

Não há como menosprezar o domínio do «simbólico» e o poder da «comunicação». Se vos disseram que é reles propaganda (descarada, inútil, dispendiosa), não acreditem. E não liguem: estarão na presença de inorgânicos.

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