Estiquemos o argumento

Pode o governo de um país ocidental – democrático; respeitador e protector das liberdades individuais; com um Estado organizado em torno do princípio da separação de poderes; capaz de dar ao mundo um ou dois Reis Novais – ter como muleta um partido que histórica e doutrinariamente caucionou regimes totalitários e ainda hoje se engasga perante a pergunta «o que foi o gulag»?

Pode. É embaraçoso? É. Vem daí mal ao mundo português? Depende do alcance da muleta.

O Dr. Costa considera honroso e glorioso o afago prístino do Sr. Jerónimo de Sousa? Na medida em que a perspectiva do abismo é a mãe do engenho, sim. Lá no fundo, não. Nas baças regiões que o Dr. Costa habita, o despotismo do hábito há muito ditou a táctica: estabelecer do modo mais prático o domínio sobre a substância – leia-se: o poder – através de uns arranjinhos (neste caso, três) utilitários. Na sua agudeza transcendente, e de empurrão em empurrão, o Dr. Costa tratou da vidinha. Nada o incomoda ou demove.

O resultado prático deste engendramento retirará, por uns tempos, o PCP da modorra, colocando-o na confluência da «interdependência»? Assim parece. A Dr.ª Catarina Martins poderá, finalmente, declamar odes a um publico mais vasto, dispensando o jambé? Lá terá de ser. Assistiremos ao regresso da doutrina do «animal feroz»? É já evidente. É uma coisa que nos chateia? Claro que sim.

Mas: e o perigo vermelho?

Entendamo-nos. Por muitos temores que a figura rebelde e revolucionária de um Dr. Lacão nos possa suscitar, não creio que as sementes de um comunismo tardio estejam, neste momento, em avançado estado de germinação nos canteiros altaneiros do Largo do Rato. Não creio que o Dr. Costa saiba quem foram Babeuf ou Blanqui, ou esteja interessado na colectivização dos meios de produção. Não creio que professe a ideia de que a acumulação do capital é produto de um sistema de desumanização dos trabalhadores. Não creio que conforme a ideia de moralidade às condições do sistema produtivo. Não creio que opte pela «expropriação dos expropriadores.» Saiu-nos na rifa um prosaico with a stingy cunning plan, não um rei-filósofo with a master plan. Para o bem e para o mal, tudo saiu e sairá poucochinho.

Devemos estar atentos? Sem dúvida, embora a parede já se aviste. Não troco o estrondo por nada deste mundo.

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