Uma vergonha

Se não me falham as contas, no dia 7 de Abril de 2016 terão decorrido 241 anos sobre a data em que o eminente Samuel Johnson terá proferido a frase «patriotism is the last refuge of the scoundrel.»

Parece muito tempo? Não é.

2 de Fevereiro de 2016: Ana Sá Lopes, Directora Executiva Adjunta do jornal I, ou simplesmente jornalista (para abreviarmos), acaba de vislumbrar a quinta coluna alemã: «Portugal dispõe hoje de uma quinta coluna bastante disponível para prejudicar os interesses nacionais em favor dos interesses dos países mais fortes da UE. São muitos, vivem de cara destapada, multiplicam-se pelas televisões (às vezes parecem omnipresentes) e desejam que Portugal seja derrotado, os portugueses sejam levados para mais cortes, as agências de rating rebentem com o país e os juros da dívida subam à velocidade dos balões.»

Isto não é só uma idiotice pegada: é vergonhoso. É vergonhoso que em democracia (leia-se: em liberdade), alguém ouse invocar o denominado «interesse nacional» (patrióticozinho, claro está) para sustentar um voto ou um pacto de silêncio.

Longe de mim apelidar de «canalhas» Ana Sá Lopes, o dr. Galamba e os que agora elogiam o «sentido patriótico» dos que emudecem ou evitam maldizer o orçamento e as negociações dos bravos dr. Centeno e dr. Costa, em contraponto à horda pervertida de «traidores à pátria» que recusam o silêncio ou as falinhas mansas em nome do «interesse nacional». Repito: é simplesmente vergonhoso.

A ideia começa por ser pueril: pensar-se que, caladinhos, passamos entre os pingos da chuva. Nem o Ruca e os seus amigos acreditam em tal coisa.

Avança por um princípio estreito, subjectivo e altamente duvidoso: o de que, em abstracto ou em concreto, os governos defendem sempre o «interesse nacional». Uma redonda e trivial mentira, que a história se encarregou de provar: at the end of the day os governos defendem os seus interesses (corporativos, ideológicos, partidários, de sobrevivência, etc). Quando muito, defendem uma «ideia» (repito: uma ideia) do que é o «interesse nacional.» Não raras vezes errada e com nefastas consequências.

Passa por negar o óbvio: numa democracia e em liberdade, cabe aos cidadãos – seja o varredor, seja o doutor deputado – ajuizar das opções, métodos e figuras que certas figuras se prestam a fazer em nome do «interesse nacional.» É perfeitamente defensável achar que o que se está a desenrolar aos nossos olhos, de há duas semanas a esta parte, fere mais o «interesse nacional» (entre aspas) do que o silêncio. É perfeitamente legítimo gritar isso a céu aberto.

Acaba no prosaico: o dr. Galamba e o dr. Porfírio sabem que nós sabemos que eles sabem que, invertidas as posições, os socialistas seriam os primeiros a desrespeitar um putativo e tácito voto de silêncio, juntando-se provavelmente à «outra esquerda» na escolha dos epítetos «salazarento», «fascizóide» ou «bolorento», para caracterizar quem ousasse recorrer a argumentos impregnados de «patriotismo». Seriam livres para o fazer. E estariam certos.

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