Tão fofinho, o elefante

Muito catita a carta aberta que o cidadão e blogger de boa cepa e velha guarda, Daniel Carrapa, dirigiu ao João Miguel Tavares.

É um caso em que o palavroso «simplismo» retórico do João Miguel Tavares tolera bem o coloquial «estava mesmo a pedi-las.»

(A propósito: o João Miguel Tavares e o Henrique Raposo, cada um no seu estilo, formam o par de articulistas mais visceralmente odiado pela horda da esquerda nas redes sociais. É sempre uma diversão acompanhar o espargir de decalitros de verborreia insultuosa sobre estas pobres criaturas, num exercício em que o odioso destrona com alegre convicção qualquer lampejo de boa-fé e tolerância, não vá a contenção verbal rimar com pusilanimidade. Temo pela saúde de todos.)

Com dizia: muito catita. Mas, lamento informar o Daniel Carrapa, não deixou de conter o já clássico mega-buraco argumentativo que a malta (sem ofensa, por favor) de esquerda insiste em cavar quando se debruça sobre estas matérias. É aquilo a que alegremente podemos chamar de «ângulo morto argumentativo»: empurra-se para a discussão uns quantos acontecimentos com peso e poder de estrondo (meu Deus, como pode alguém desdizer uma coisa chamada quantitative easing? Ou esquecer os malandros de Wall Street?); entremeia-se de forma elegante um conjunto de factos de teoria monetária que qualquer aluno de Economia aprende ainda no ensino básico (podem ler-se aqui); polvilha-se a coisa com um suave e leve bouquet ufano de quem não faz concessões a «contas de merceeiro» (côrror!); tudo isto na secreta esperança de que se venha a produzir o salvífico e inefável «ângulo morto» que subtraia o elefante.

E o que é o elefante? Coisas aparentemente «mesquinhas»: um nível de endividamento externo dos mais elevados da Zona Euro (entre 2004 a 2009 a dívida externa líquida cresceu «apenas» 76,8%); uma dívida augustamente nutrida por um continuum (muito pontualmente interrompido) de défices orçamentais elevados, mascarados comme il faut por via da desorçamentação (com especial destaque para os negros anos de 2009 e 2010); uma dívida pública à qual foi administrado um valente suplemento alimentar a partir de 2005, não fosse a dita esmorecer; níveis de crescimento e produtividade sub-anémicos (servidos por um «tecido» industrial ralo e quebradiço, mais frágil do que a credibilidade de Miguel Relvas.)

Pelo meio, há uma leve e cordata referência ao paquiderme, recorrendo-se ao inefável «não está em causa», que é como quem diz «eu estou a ver o filme todo, atenção.» Escreve o Daniel Carrapa: «não está em causa ignorar as responsabilidades dos governos que seguiram políticas de expansionismo imprudente, colocando os seus países numa circunstância de perigosa vulnerabilidade.» Pois não: «não está em causa», mas quanto ao «expansionismo imprudente» nem uma palavra. É como se, enfim, a questiúncula estivesse ao largo do tremendismo das questões importantes (urdiduras internacionais incluídas). Uma circunstância interna, transitória, sem peso ou significado relevante. Um aborrecimento a ser facilmente afagado pela intendência indígena, e sem correlação com o financiamento da economia portuguesa ou a posição desta no mundo.

Também não houve tempo nem palavras para o período em que foi aplicado o programa de ajustamento, também conhecido por «programa da troika» ou, nas palavras do sr. Jerónimo de Sousa, «pacto de agressão.» Como se o programa fosse: a) inócuo; e/ou b) redentor; e/ou c) amiguinho; e/ou d) eficaz em quatro aninhos; e/ou e) culpa do governo que foi obrigado a aplicá-lo.

O resultado do exercício é muito satisfatório quando comparado com o «engraçadismo» (recorro ao mestre Pacheco Pereira) baço e paternalista do texto do João Miguel Tavares. Mas o elefante continua lá. E se o João Miguel Tavares carrega na ponderação das «causas internas» (leia-se: pratica amor com o elefante), o Daniel Carrapa aponta as baterias às «causas externas» (leia-se: foge do dito para não acabar esmagado.)

Entre um e outro? Sinceramente, passo.

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