O meu presidente

Portugueses,

Tomo hoje posse como presidente da república portuguesa.

Contrariando o que tem sido propalado por antigos presidentes da república, ou por proeminentes figuras da república quando convocadas a discursar em dias solenes, gostaria de vos dizer o seguinte: não esperem grande coisa de Portugal, na exacta medida que o país não esperará grande coisa de vós.

Portugal é um país pequeno, sem grandes recursos, povoado por gente de capacidade muito desigual, embora na sua maioria medíocre. Gente mais ou menos avessa ao trabalho, mais ou menos avessa ao estudo e ao rigor, gente mais ou menos habilidosa, gente mais ou menos talentosa. Não tenham, por isso, ilusões: não fomos, não somos, não seremos nada de especial.

A classe política, da qual eu faço parte e constituo um bom exemplo, gozando da eterna complacência do povo que supostamente deveria servir, tem sido invariavelmente miserável. Não porque tenha origem numa coutada marcada por problemas de consanguinidade, e por isso propensa à idiotia, ou por ser portadora de um particular gene da estupidez. Acreditem no que vos digo: por detrás de um político medíocre ou fraco, escondem-se dezenas, centenas de portugueses igualmente medíocres e fracos.

Não acreditem quando vos disseram que temos um problema de falta auto-estima. Não temos. A haver um problema, será de excesso: excesso de auto-estima e de auto-confiança, que nos conduz invariavelmente a achar que “o que é nacional é bom”; excesso de verborreia e lero-lero, que nos leva a confiar cegamente na bondade da palavra, no carácter salvífico das convicções e a presumir que, com tanto diagnóstico, nada poderá falhar; excesso de bazófia e de orgulho, embevecidos pelo paleio das “bolsas de excelências” ou embriagados pelos relatos que nos dizem: lá fora, somos o máximo.

Não vos trago, anuncio ou prometo a salvação. Não há salvação possível, porque nada há a salvar. As coisas são o que são. O orgulho que nos poderia proporcionar a longínqua memória de um Portugal glorioso, de nada nos poderá servir, na medida em que a perspectiva mítica de uma nação nunca foi motor de coisa nenhuma. Do passado, tentemos preservar o património tangível que nos foi legado e não estragar o que, apesar de tudo, teima em perdurar. Já seria muito bom, portugueses.

Estamos, em suma, entregues a nós próprios: áquilo que fazemos ou não fazemos, decidimos ou não decidimos, assumimos ou não assumimos, numa escala que é muito mais atómica do que propriamente colectiva.

Portugal não é “obra de todos”. Deixemo-nos de tretas: “Portugal” não existe. Se vos disserem o contrário, estarão a mentir. Boa sorte.

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