Ah humanity!

Na epígrafe do seu opus magnum Under The Volcano, Malcolm Lowry recorre a uma passagem da Antígona de Sófocles onde se exalta o homem, essa fantástica criatura:

Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co’o sopro invernoso do Noto,
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
imortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.
 
E das aves as tribos descuidadas,
a raça das feras,
em côncavas redes
a fauna marinha, apanha-as e prende-as
o engenho do homem.
Dos animais do monte, que no mato
habitam, com arte se apodera;
domina o cavalo
de longas crinas, o jugo lhe põe,
vence o touro indomável das alturas.
 
A fala e o alado pensamento,
as normas que regulam as cidades
sozinho aprendeu;
da geada do céu, da chuva inclemente
e sem refúgio, os dardos evita,
de tudo capaz.
Ao Hades somente
não pode escapar.
De doenças invencíveis os meios
de escapar já com outros meditou.

(trad. Maria Helena da Rocha Pereira)

Por razões de economia, ou pelo que viria a escrever nas páginas seguintes, Lowry não transcreveu a 2.ª antístrofe, cujo início reza assim:

Da sua arte o engenho subtil
p’ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;

É um tema batido, eterno, inesgotável: o homem capaz dos maiores prodígios (técnicos, artísticos, etc.) mas também das maiores monstruosidades, com a «natureza humana» no papel de receptáculo ou hibernáculo das sementes do mal, cujas radículas se tornam visíveis em momentos disruptivos, de grande incerteza e medo.

O Brexit – esse acontecimento longínquo – foi um desses momentos em que a face odiosa do homem deu um ar da sua (des)graça. Esqueçam a desvalorização da libra, o potencial êxodo corporativo, a deslocalização dos centros de decisão, o fim da livre circulação de pessoas, a estapafúrdia reacção do inefável Juncker. O que verdadeiramente ensombrou os resultados do referendo britânico foi a forma absolutamente obscena como se classificou, julgou e condenou toda uma geração.

De uma assentada, a suposta solidariedade intergeracional eclipsou-se. O «humanismo», a «tolerância» e o «civismo» deram lugar à acrimónia, ao ressentimento e à desconfiança, num lupanar de almas cobardes e histéricas. Tudo indica que terão sido «os velhos» – egoístas, egocêntricos, ignorantes, xenófobos, pendurados nas mordomias do Estado Social – que, com o seu voto, «roubaram» o futuro de milhões de jovens.

Roula Khalaf, no Financial Times, deu conta da fúria: «Now their vision of the future has been taken away, the young are responding with rage.» Em local mais respeitável e ponderado – o Twitter… – houve uma criatura que escreveu «I know it’s not very ‘politically correct’ to say it out loud but in the wasteland of ruined Britain I am going to hunt and eat old people.» Bom proveito.

Ninguém esteve minimamente interessado em saber ou perceber o que levou «os velhos» a votar maioritariamente no Leave. Se estariam, entre outras coisas, a pensar também no futuro dos filhos e dos netos. Ninguém esteve disposto a aceitar que, no meio dos «velhos», também estivesse gente educada, informada e ponderada. Gente que, como prosaicamente se diz, «já viu muito e demais.» Gente que aprendeu as vantagens do cepticismo sobre as do optimismo e que, regra geral, tem uma perspectiva mais distendida e desassombrada sobre o passado, presente e futuro.

Ninguém, aliás, está muito interessado em perceber ou escutar «os velhos». Na sua impotência física e na sua caturrice abstrusa, «os velhos» tornaram-se uma excrescência, saco de pancada preferencial de uma geração que «exige», «reclama» e «reivindica», recorrendo a todos os meios de que dispõe, numa imparável voragem de vaidade, presunção e ignorância. Absolutamente lamentável.

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