Carry on

Assembleia da República. Ao contrário do que possamos pensar, o doutor Costa e o doutor Passos Coelho têm coisas em comum: líderes de bancada sofríveis; wannabe Berias; carpideiras que cumprem impecavelmente a quota da «indignação»; deputados desejavelmente anónimos (cuja intervenção no hemiciclo rivaliza com a discografia de Marcel Marceau); um sortido de gente com fatos de péssimo corte; três ou quatro existencialistas. E, claro, gente normal.

Mas é no comportamento dos líderes que observamos a mais comum das características: um percurso sólido, prolongado e certificado nas respectivas «jotas».

Só gente cuja carreira incluiu garraiadas e sapatos de vela, listas e «conteúdos programáticos», colagem de cartazes, universidades de Verão com serviços de liquidificação do quadrante do cérebro que promove a autocrítica, e estágios confortavelmente apadrinhados, pode desempenhar com particular vocação o manhoso registo parlamentar com que nos tem brindado.

Perante o bruá das hostes que vibram com as bocas dos chefes («chegou-lhe bem, doutor!»), e num registo que entremeia o bullying politiqueiro com a falsa incredulidade, os doutores Costa e Passos Coelho agigantam-se quinzenalmente: do sorrisinho perene e gozão do doutor Costa (alavancado por tiradas clássicas como a pungente «não esteja nervoso, senhor deputado!»), ao ar de virgem ofendida do doutor Passos-fui-traído-Coelho (que, ao contrário do Berlioz de Bulgakov, acredita no diabo mas vai acabar como o presidente da MASSOLIT), há todo um estilo devedor de uma carreira maturada nos interstícios da corte lesboeta desde tenra idade.

Vale a pena invocar o senhor Trump com um definitivo «sad»? Nada disso: é uma alegria. Tenho a secreta esperança de que estes comportamentos, que tanto nos divertem como nos envergonham, ajudarão a fortalecer o sentimento de desprezo e indiferença que os cidadãos crescentemente nutrem pelos seus representantes.

Há quem jure a pés juntos que isto é terrível, tremendo, o início do fim do sistema democrático tal como o conhecemos. Acho precisamente o contrário: voltar as costas à corte será um sinal de maturidade e equilíbrio democráticos. Além de que, há falta de outra, esta poderá ser a derradeira forma de aprendizagem – apesar das fácies do doutor Barbosa Ribeiro e do doutor Hugo Soares nos fazer presumir sérias resistências à instrução.

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