Dos insectos e humanos

Conforme explicou limpidamente Robert Benchley, pondo em causa a tese do Prof. Bouvier (segundo a qual os insectos poderiam não gozar da inteligência que por vezes lhes queremos atribuir), os insectos levam tempo a matutar e a decidir sobre assuntos complexos: o efeito alucinogéno da piretrina e a sua implicação na saúde da espécie; as condições de trabalho nos favos ou caixotes do lixo; a influência da policromia nos trabalhos de polinização; que tipo de sangue aporta mais nutrientes; causas e origens de metamorfoses degenerativas que descambam na monstruosa transformação dos insectos em gregórios samsas; etc.

A vespa do Sr. Benchley, por exemplo, levou uma noite inteira a reflectir sobre se deveria, ou não, dar início ao trabalho de organização do catálogo de larvas do Sr. Benchley. Ao fim de várias horas, decidiu, e muito bem, não o fazer, compreendida a cabal ignorância em matéria de larvas, e a ruína organizativa que daí poderia resultar. Uma vespa irreflectida teria metido patas à obra.

É certo que há assuntos que requerem, pela sua natureza, um tipo de raciocínio que os humanos gostam de reputar de «instantâneo» ou «reactivo». É o caso, por exemplo, do estudo do ângulo e da velocidade de um mata-mosquitos no momento em que é desferido o golpe. Uma reflexão demorada significa, para o comum dos insectos, a morte. Há insectos mais lentos de raciocínio. Regra geral, vivem pouco.

Nos humanos-políticos, é muito parecido. Há humanos-políticos mais «reactivos», há humanos-políticos mais «reflectivos» (há também os que não são nem uma coisa, nem outra, mas não pretendo falar de protozoários.)

O Prof. Cavaco Silva é o exemplo de um humano-político dado à reflexão. O melhoramento geral do povo leva a que o Prof. Cavaco Silva não dispense uma boa meditação, acompanhada de aconselhamento técnico, moral e político. Mesmo que, como a vespa do Sr. Benchley, acabe a completar uma volta de 360º, exausto e triste. Isto enerva muito a esquerda (a esquerda enerva-se muito.) O que facilita a identificação dos humanos-políticos reactivos.

Um humano-político muito reactivo aos roteiros reflectivos do Prof. Cavaco Silva, é o deputado Tiago Barbosa Ribeiro. Há dias, reagindo a afirmações de que se aliviou o Prof. Cavaco Silva, o deputado Tiago Barbosa Ribeiro apelidou-o de «gangster». No dia seguinte, acabou a pedir desculpas. Um bom exemplo de uma atitude «reactiva» irreflectida de um político «reactivo» pouco dado à reflexão (tanto mais que, neste caso, a ausência de reacção não representava perigo de vida.)

Mais sofisticado, é o caso do deputado João Galamba. Na noite do dia em que o Prof. Cavaco Silva fez o primeiro discurso «de seita» (recorro à terminologia de esquerda), o deputado João Galamba apelidou-o de «golpista». A imputação passou mais ou menos despercebida. Mas uma coisa é certa: podemos e devemos culpar o deputado João Galamba pela introdução e banalização do termo «golpista», sinal de um péssimo serviço prestado aos seus constituintes.

Seja como for, nos humanos-políticos, a dicotomia reflexão-reacção (agradeço a oportunidade de poder usar o termo «dicotomia») é tensa, amiúde comprometedora e também difusa. Há, aliás, conhecimento de estirpes híbridas. Veja-se o caso da deputada e incumbente Catarina Martins. É «reactiva», nas suas expressões populares? É. E reflectiva? Também. Característica muito comum nos himenópteros demagogicus.

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