Product placement

Consta por aí que a entourage do actual primeiro-ministro de Portugal e inefável gerente da já mítica gerigonça, terá contactado Ana Garcia Martins, mais conhecida por «Pipoca Mais Doce» por causa do blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, com o intuito de levar a cabo uma acção de product placement, numa altura em que o doutor Costa disputava a liderança do PS ao doutor Seguro.

Para quem não vive neste mundo, o inescapável blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, também conhecida por «Pipoca Mais Doce», promove «estilos de vida» (do inglês lifestyles) através da associação de «vernizes», «sabrinas», «livros», «jóias» e «óculos de sol» (estou a citar as entradas do menu do blogue) a prosa descontraída, pontuada por considerações mais ou menos sérias sobre a vida em geral e o universo em particular.

E que produto, perguntará o anão auditório deste vosso criado, queria a entourage do doutor Costa «colocar»? Wait for it…obviamente: o próprio doutor Costa.

Telegénico, senhor de um invejável currículo de astúcia politiqueira e de exímia queda para a esgrima argumentativa, educado desde tenra idade para intendências políticas de grande fôlego (que lhe conferiu o cognome de «o desejado»), o produto «António Costa» usando panamá Borsalino, mocassins Tod’s e camisa Ermenegildo Zegna, à beira de um Porsche 911 cabrio, encantaria o povo socialista indefectível do lifestyle (mas ainda sob o feitiço do doutor Seguro). En passant, lançar-se-ia o candidato ideal sobre a demais populaça para que esta, no momento em que fosse convocada a eleger um novo primeiro-ministro, optasse por um candidato avesso ao neoliberalismo, amigo das pessoas e levemente playboy.

Como estratégia: imbatível.

Desgraçadamente, Ana Garcia Martins, também conhecida por «Pipoca Mais Doce» por causa do blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, disse que não. O resultado esteve à vista: o doutor Costa levou uma tareia nas eleições legislativas do candidato Dercos Aminexil.

Felizmente, o doutor Costa tinha o Certificado de Aptidão Profissional de manobrador de pesados. E dois palermas, perdão, ajudantes de campo.

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Foi o Valter Hugo, mãe!

Consta por aí (não garanto que seja verdade por causa daquela coisa da pós-verdade) que o fantástico Ministério da Educação recomendou um livro do escritor Valter Hugo Mãe para o 3.º Ciclo no Plano Nacional de Leitura, que contém, e passo a citar, «linguagem sexual violenta», facto que escandalizou crianças, pais e um pastor no Fundão.

Vamos a uns excertos:

«E depois fazem amor pelo cu porque não têm racha, enfiam coisas no cu, percebes.»

«E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.»

Que a prosa pueril do senhor Hugo Mãe inspire o fabuloso Ministério da Educação a recomendar a obra a alunos do 3.º Ciclo: compreende-se.

Já não se compreende a escandaleira em torno da «liguagem sexual violenta», que os petizes praticam com especial devoção nos pátios do Snapchat, do WhatsApp e da escolinha.

O embaraço, aqui, é outro: o de termos chegado a um estágio cultural/intelectual que suscite aos doutores do sensacional Ministério da Educação exaltar escritores e obras desta categoria (dito de outra maneira: estivesse o problema só naquelas frases…)

E tudo isto sem o Trump estar envolvido.

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Premonição

A propósito disto, lembrei-me disto:

O world of spring and autumn, birth and dying!

The endless cycle of idea and action,

Endless invention, endless experiment,

Brings knowledge of motion, but not of stillness;

Knowledge of speech, but not of silence;

Knowledge of words, and ignorance of the Word.

All our knowledge brings us nearer to death,

But nearness to death no nearer to God.

Where is the Life we have lost in living?

Where is the wisdom we have lost in knowledge?

Where is the knowledge we have lost in information?

The cycles of Heaven in twenty centuries

Brings us farther from God and nearer to the Dust.

 

in The Rock de T. S. Eliot

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Morreu o Leonard Cohen

Field Commander Cohen, he was our most important spy.
Wounded in the line of duty,
Parachuting acid into diplomatic cocktail parties,
Urging Fidel Castro to abandon fields and castles.
Leave it all and like a man,
Come back to nothing special,
Such as waiting rooms and ticket lines,
Silver bullet suicides,
And messianic ocean tides,
And racial roller-coaster rides
And other forms of boredom advertised as poetry.
I know you need your sleep now,
I know your life’s been hard.
But many men are falling,
Where you promised to stand guard.

I never asked but I heard you cast your lot along with the poor.
But then I overheard your prayer,
That you be this and nothing more
Than just some grateful faithful woman’s favorite singing millionaire,
The patron Saint of envy and the grocer of despair,
Working for the Yankee Dollar.

I know you need your sleep now

Ah, lover come and lie with me, if my lover is who you are,
And be your sweetest self awhile until I ask for more, my child.
Then let the other selves be wrong, yeah, let them manifest and come
Till every taste is on the tongue,
Till love is pierced and love is hung,
And every kind of freedom done, then oh,
Oh my love, oh my love, oh my love,
Oh my love, oh my love, oh my love.

Morreu o Leonard Cohen.

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So long, Mariana

Devemos a Mariana Mortágua o momento mais franco e ternurento da política portuguesa dos últimos anos. A clareza e a franqueza chegaram-nos pelo verbo: «devemos perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro». A ternura pôde ser observada na forma como alguns socialistas (sobretudo os afectos à juventude turca) tentaram acalmar as hostes: «calma, amiguinhos, isto pode ser explicado.»

As coisas são o que são. A voz delicodoce, o olhar arguto e o sorriso monalisiano de Mariana Mortágua parecem num primeiro momento consolar a nossa inquietação perante as injustiças do mundo, mas uma vez debitado, o ideário Mortágua desengana os menos incautos. Tudo é claro, límpido, inequívoco: estamos perante uma gema marxista, impenetrável e inflexível.

Imaginar uma conversa com Mariana Mortágua sobre teorias de propriedade ou diferentes concepções de justiça distributiva – dos princípios «históricos» aos de «resultado final» dissecados por Nozick, passando pela teoria da aquisição de Locke e por aí fora  – resultaria numa pequena e certamente divertida representação teatral do absurdo, com o bom senso e o consenso no papel de Godot.

No mundo de Mariana não interessa saber como, em que circunstâncias (por exemplo, se o «acumulador» já percorreu uma fileira sacra de tributos), quando e quem acumulou «dinheiro»: quem o fez, fê-lo certamente à custa de outrem. 1 € ganho por A significou 1 € perdido por ou roubado a B. A «acumulação» será sempre senão ilícita, no mínimo injustificável e imoral, contrária à consumação do preceito-mor: de cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades.

É no mais central, distinto e chique bairro do seu cérebro que Mariana preserva e mantém intacta a sua cosmovisão do mundo, habitada pelos bibelôs marxistas da praxe: a infraestrutura e a super-estrutura; o lucro (a vil essência do capitalismo); as teorias do valor, salário e da mais-valia; a taxa de lucro e a sua relação com a composição orgânica do capital (capital variável vs. constante); as proposições referentes à proletarização e à pauperização, demonstrativas do devir auto-destrutivo do regime capitalista; e por aí fora.

Do alto dos seus Converse All Stars, Mariana acredita piamente que o capitalismo tenderá para a cristalização das relações sociais em dois únicos grupos: capitalistas (também conhecidos no mundo de Mariana como «acumuladores») e proletários (os alienados e miseráveis). As classes intermédias jamais terão iniciativa nem dinamismo histórico – como, aliás, profetizava Marx.

Mas ao contrário de Marx, para quem o poder político e o Estado eram os meios pelos quais a classe dominante («acumuladora») mantinha a sua dominação e exploração sobre o proletariado (logo, entidades a abater), Mariana Mortágua acredita que não será necessário suprimi-los, antes apetrechá-los de um exército de justos e «corajosos» (do qual ela faz indubitavelmente parte) que não terão vergonha alguma em «retirar dinheiro a quem acumula.»

Que Mariana Mortágua seja isto, não me surpreende. Que o PS caucione estas intervenções, já me causa alguma estranheza. Ou não passo eu de um incorrigível ingénuo.

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Tudo isto é triste, tudo isto é fado

Tales de Mileto acreditava que a água era o elemento fundamental do mundo, de onde tudo provinha e para onde tudo caminhava; Anaximandro, consciente da vastidão e do carácter incognoscível do Universo, defendia a ideia de que as coisas observáveis tinham origem num permanente estado de conflito entre elementos de sentido oposto (o dia e a noite, o frio e o calor, a humidade e a aridez) com o «tempo» no papel de árbitro (e expondo, en passant, a intrincada e divertidíssima história do nascimento do cosmos envolvendo uma espécie de ovo que evoluía para uma massa fria e húmida envolta num anel de fogo); Anaxímenes colocava todas as suas fichas na ideia de que a condensação e a rarefacção causadas pela deslocação do ar constituíam o motor do mundo: as nuvens, as árvores, as rochas, etc seriam variações no grau de concentração do ar.

Dois mil e quinhentos anos depois, o pós-socrático engenheiro Sócrates não tem caminhos para desbravar, nem jónios para pastorear. É razoável supor-se que na primária de Vilar de Maçada, na secundária da Covilhã, no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra ou de Lisboa, o engenheiro tenha travado conhecimento com noções básicas de química, física e astronomia que o impeçam, hoje, de especular e arriscar como os pré-socráticos. Como é próprio dos espertos, restou-lhe alicerçar todo o seu pensamento filosófico no trabalho de outros (antes Kant, agora Weber, sempre em modo simplista) coadjuvado pela infinita força motriz da estupidez humana, capaz de colocar ao seu serviço um particular exército de figurinhas mais ou menos grotescas (do fidelíssimo André Figueiredo, ao inefável Mário Lino) e mais ou menos anónimas, prontas a compor o ramalhete e a animar o arraial. Louvada seja a impreparação dos jornalistas e entrevistadores que ainda se interessam pela coisa, louvada seja a rede viária interior-capital, capaz de proporcionar rapidez e segurança à frota de autocarros fretados (supõe-se que com as revisões em dia.)

«O Dom Profano – Considerações sobre o carisma» é, obviamente, mais um exercício de egocentrismo (tentem adivinhar em que líder carismático estaria ele a pensar), sem ponta de originalidade, a meio caminho entre a megalomania intelectual de uma mente medíocre e a vaidade incontrolável de um homem que perdeu a noção do ridículo e que julga ser capaz de sair do profundíssimo abismo em que caiu com a ajuda das lombadas dos livros que vai publicando enquanto auto-proclamado sage. Porque o tempo urge e a vida é profanamente finita, aconselho fonte 30pt, espaçamento triplo, papel de 250gr e a contratação de mais duzentos «revisores.»

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