The dude abides

O doutor António Mendonça Mendes é um homem feliz. Como homem feliz, transpira, entre outras coisas, tranquilidade. O ar cândido com que disse «nós nem temos de deixar tudo para a última hora nem temos de utilizar tudo no primeiro dia, temos de utilizar ao longo do tempo» (uma frase, desde logo, a roçar prazenteiramente o ininteligível) evidencia uma atitude despreocupada perante a vida em geral, e as intendências que lhe foram parar ao colo em particular.

O facto do Estado levar cerca de seis meses a acertar as contas com os contribuintes, retendo dinheiro que não lhe pertence, não o comove. Estou, aliás, em crer que o doutor António Mendonça Mendes toma o exercício como um divertimento: que razões levam os velhacos dos contribuintes a querer submeter o mais rapidamente possível «o modelo três»? No conforto do seu duplex respaldado com o ordenadinho que os apressados lhe pagam, o doutor António Mendonça Mendes coloca todas as hipóteses: será avareza, mesquinhez, gulodice, obsessão com portais, existências vazadas? Um passatempo encantador.

Standard

Deus salve os nossos governantes

A acção de limpeza das matas que mobilizou todo o governo de Portugal, foi uma aposta ganha. Veio ratificar a ideia de que o espírito colectivo substitui o critério moral (e abstracto) pelo critério histórico, o qual tem por base a consagração dos factos consumados. A difusão de imagens pela espectacular TDT, foi determinante. Nada ficou como dantes. A história é recente, mas é história. E factos são factos.

O senhor Tomé Azevedo, habitante de Nespereira (Cinfães), viúvo, reformado e proprietário de uma courela herdada, não conseguiu conter o vigor reactivo que a imagem do doutor Castro Mendes, actualmente a debater-se com uma ciática excruciante, lhe provocou. «Ver o senhor ministro a pôr comida na boca de uma ovelha, tocou-me. Foi poético. Daí a limpar as matas, foi um passo», relata o senhor Tomé, derrubando inadvertidamente a chávena de chá de ameixa preta que o congestionamento do seu particular IC19 tem ultimamente recomendado, dada a constante excitação em que tem andado.

Também Alberto Morais, residente em Mouraz, gerente de uma taberna em Vila Nova da Rainha e de dois pubs na zona metropolitana de Tondela, conhecido na região como o «Manuel Reis das Beiras» pelo incansável e desinteressado trabalho de dinamização nocturna e cultural levado a cabo na década de 90 (no virar do século veio a dedicar-se à pastorícia dada a experiência adquirida), não resistiu ao visionamento do doutor Costa de gadanha hi-tech na mão e camuflado xadrez no tronco: em poucos minutos, reuniu as ferramentas e atacou o matagal.

Ofélia Brites e Julieta Brites, irmãs e eternas solteiras de Unhais-o-Velho, há anos entregues ao sono bestial do enfartamento senil, não acreditaram, num primeiro momento, no que estavam a ver. Mas depressa se convenceram: a doutora Van Dunen amanhava o silvado como há muito não se via. Pela subtileza competente dos gestos, logo ali perscrutaram a imagem da saudosa mãe, grande referência moral que as ensinou, entre outras coisas, a dissuadir as investidas do macho-alfa pela permanência do buço. Em poucas horas, reuniram a vizinhança (duas cabras) e rumaram aos terrenos.

Mais a sul, o testemunho de Bernardino Quarenta não deixa margem para dúvidas. Ele e a mulher, Josefa Tirapicos, que em tempos ficou conhecida na região por ter cantado uma modinha aos microfones da TSF, num dos périplos do grande Fernando Alves pelas profundezas da pátria, andavam desmotivados, acabrunhados – nas palavras do próprio: assacanados. Septuagenários, vivem num monte no sopé da Serra d’Ossa isolados do mundo, apesar da luxuriante companhia de uma pensão de reforma a bater os trezentos e cinquenta euros. Não fosse a leitura, há cerca de dois anos, do Alentejo Prometido, magnus opus de Henrique Raposo oferecido por um dos filhos na concorrida visita bienal à casa dos pais, provavelmente já não estariam do lado de cá. Mas a vida continuava a oferecer resistências. A reportagem da equipa ministerial a limpar matas, foi um game changer. A palavra ao senhor Bernardino: «Lembro-me de ter dito à minha Zefa: porra, mulher, do que é que estamos à espera!? Andamos p’rá ‘qui aos caídos e os nossos governantes naquele esforço… Pega já nas enxadas, ca****!» Reencontraram o sentido da vida.

Na Bemposta, junto a Odemira, Amândio Saturnino, mais conhecido pela alcunha «o pilha-galinhas», pensionista de vocação e avicultor por opção, proprietário de uma herdade com 0,01 hectares onde residia rodeado de arvoredo desgovernado, ficou agradavelmente perplexo. «Ver o altruísmo daquela gente foi para mim uma inspiração. Chorei como há muito não chorava. Até assustei os cães.» A estratégia do senhor Amândio foi mista e aguçada: para além do esforço de braços, soltou os galináceos e armou-os sapadores. Serviço limpinho.

No Algarve, em Marmelete (perto de Monchique), o tumulto alastrou-se a diversas habitações. Em pouco mais de meia-hora, uma dúzia de pequenos agricultores, mas grandes rústicos, juntou-se no adro da igreja, envergando tochas, foices, dois exemplares da Constituição da República Portuguesa e uma Bíblia. Imolou-se um gato – ritual bastante apreciado na região – e gritou-se «Às matas!» Não sobrou um tufo para contar a história.

Mais a leste, em Balurcos, a sul do Parque Natural do Vale do Guadiana, o testemunho de Felizarda Mortágua, 68 anos, é ilustrativo: «Lembro-me perfeitamente daquele dia: tinha acabado de montar o televisor 4k com ligação à internet. Eu e o meu marido ficámos atónitos, mas ainda do que é habitual com a CMTV. Ainda pensámos que fosse do efeito da qualidade da imagem, que o 4k é uma maravilha. Mas não. Ficámos, de imediato, motivadíssimos. O meu marido até me disse ‘vês como se faz, Felizarda?’ ao que respondi, meio envergonhada, ‘não fazia ideia, Manel’. Como diz o povo, e com razão: nunca é tarde para aprender.» É comummente aceite na aldeia que o dia 24 de Março marcou as vidas de quem ali mora. Há uma petição para o tornar feriado.

Não há como menosprezar o domínio do «simbólico» e o poder da «comunicação». Se vos disseram que é reles propaganda (descarada, inútil, dispendiosa), não acreditem. E não liguem: estarão na presença de inorgânicos.

Standard

And especially

«…and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people’s hats off…»

Standard

Taxistas de todo o mundo, uni-vos!

Theodore Dalrymple fez o elogio dos taxistas: gente normalmente bem informada, com uma visão muito clara da natureza humana, sem concessões ao cinismo e ao sentimentalismo.

Concordo e, de forma imodesta, confesso-me: paulatinamente, com o avançar dos anos, tenho vindo a consumar um trade-off metodológico entre a politologia anódina de salão, que durante anos nutri sob notável esforço autodidacta, e um comovente apego a formas mais ou menos abruptas de taxismo, doutrina injustamente vilipendiada por flocos de neve, políticos em geral e gente cuja auto-estima foi barbaramente violentada num qualquer trajecto aeroporto-baixa.

Dito de outra maneira: a idade subtraiu-me a sofisticação que subordina a liberdade ao fim estético, mas compensou-me com o melhoramento de uma técnica analítica de perscrutação das misérias humanas e da pantominice, filha maior do senso comum e do cepticismo. Estão a ver aquele ditado «a conservative is a liberal mugged by reality»? Pois é: fui assaltado vezes de mais.

Noutros tempos, este desvio na direcção de ordens filosóficas de raiz, digamos, mais popular, ter-me-ia levado ao degredo e à vergonha. Com o passar dos anos, abracei com convicção uma atitude eminentemente «básica», de desprezo pelo «homem público» e de desconfiança pelo que me rodeia. Graças a Deus por isso.

Impõe-se, nesta fase, uma palavra de agradecimento aos responsáveis por esta deriva analítica: os políticos do meu país.

Os trágicos acontecimentos das últimas semanas escancararam a céu aberto a impreparação, a mendacidade e o foguetório de hipocrisia de uma classe que nos devia respeitar e servir e pouco mais faz do que jogar: jogar com as palavras, jogar com noções básicas de honestidade, jogar com a inteligência alheia, jogar com os sentimentos. Tudo muito previsível, infantil e nauseabundo.

Observar a reacção dos líderes do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista face aos incêndios, hoje, comparando-a com a reacção dos mesmos actores há dois anos, é constatar a existência de criaturinhas que por cupidez ou tacticismo fazem questão de chafurdar na pocilga da desonestidade intelectual. Escutar Passos Coelho sobre putativos suicídios durante uma visita a Pedrógrão Grande, ou assistir ao degradante espectáculo de governantes agarrados que nem lapas à «imprevisibilidade» dos raios e a «inauditos» downbursts com o intuito de esconder clamorosas falhas dos serviços que tutelam, é um fortíssimo contributo para a industria dos antieméticos.

Questionamo-nos: que gente é esta? Da chincana política à postura de bullies; da impreparação e cobardia, à mendacidade e à dissimulação; a resposta é óbvia e definitiva: a pior geração de políticos do Portugal democrático.

Dizer isto é um exercício simplista de generalização, demagógico e injusto? É a vida.

Standard

Temos pena

“O pior momento da minha vida!”, afirmou, novamente, a senhora ministra da Administração Interna. Novamente. E novamente de lágrimas nos olhos.

Alguém deveria avisar a senhora ministra da Administração Interna de que ela não é, neste processo, mais uma vitima. Ninguém está interessado nos seus estados de alma. Morreram 64 pessoas. 254 feridos. Mais de 100 desalojados. Os «piores momentos da vida» que importa invocar e relevar são estes. Ponto.

Dizer isto não é culpar a senhora ministra do que quer que seja. É colocar as coisas no devido lugar. Se a senhora ministra da Administração Interna decidiu ficar e não se demitir (nas palavras da própria: «seria o mais fácil»), não queremos que fique para levar à cena confissões emocionadas. Não queremos queixas, como as que ouvimos o ano passado. Queremos que fique e que demonstre firmeza, tenacidade e resiliência. Em suma: cabeça.

O resto é folclore. E de péssimo gosto.

Standard

Not with a bang

Valdemar Alves, presidente da câmara municipal de Pedrógão Grande, respondia às perguntas de uma senhora jornalista na TSF, explicando o óbvio e o trágico: à dor da perda de familiares e amigos, juntava-se o desespero dos que ficaram sem nada: sem tecto, sem hortas, sem pomares, sem animais, sem equipamento agrícola. As casas tinham literalmente desaparecido, consumidas pelas chamas, explicava Valdemar Alves. E eis que surge a pergunta que se impunha da boca da senhora jornalista: «Mas eram segundas casas?»

No esplendor da sua imbecilidade, a pergunta é o mais perfeito ramalhete que compõe e completa o retrato social do Portugal contemporâneo: um país profundamente assimétrico, onde uma parte significativa da população não faz a mais pálida ideia do que se passa no seu território, tirando um aprofundado conhecimento dos corredores publico-privados que ciclicamente percorre, ligando os interstícios dos grandes conglomerados habitacionais onde habitualmente pastoreia a prole em ambientes controlados, e as areias algarvias saturadas de atoalhados em modo patchwork.

A concepção que a maioria dos portugueses veio a formular sobre o que é «o interior», reflecte o monumental ângulo morto onde se encontram alojadas as paragens «exóticas» que em abstracto constituem a ideia de «província», num registo efabulado pejado de quintinhas com pissina, solares e torres queirosianas, casas de pasto DOP, gente autóctone super pitoresca, galinhas, cabritos e borregos (que, como toda a gente sabe, são os filhos das vacas.)

Resta acrescentar que, nos últimos quarenta anos, este alheamento foi acompanhado por um vórtice centralista de decisões governativas muito do agrado de uma classe política alimentada a bifes do café de São Bento e competentemente apetrechada com estudos alicerçados no tríptico eficiência-custo-benefício, que repetidamente parecem comprovar o óbvio: «no deserto não há gente.» Só segundas casas.

Standard