Product placement

Consta por aí que a entourage do actual primeiro-ministro de Portugal e inefável gerente da já mítica gerigonça, terá contactado Ana Garcia Martins, mais conhecida por «Pipoca Mais Doce» por causa do blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, com o intuito de levar a cabo uma acção de product placement, numa altura em que o doutor Costa disputava a liderança do PS ao doutor Seguro.

Para quem não vive neste mundo, o inescapável blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, também conhecida por «Pipoca Mais Doce», promove «estilos de vida» (do inglês lifestyles) através da associação de «vernizes», «sabrinas», «livros», «jóias» e «óculos de sol» (estou a citar as entradas do menu do blogue) a prosa descontraída, pontuada por considerações mais ou menos sérias sobre a vida em geral e o universo em particular.

E que produto, perguntará o anão auditório deste vosso criado, queria a entourage do doutor Costa «colocar»? Wait for it…obviamente: o próprio doutor Costa.

Telegénico, senhor de um invejável currículo de astúcia politiqueira e de exímia queda para a esgrima argumentativa, educado desde tenra idade para intendências políticas de grande fôlego (que lhe conferiu o cognome de «o desejado»), o produto «António Costa» usando panamá Borsalino, mocassins Tod’s e camisa Ermenegildo Zegna, à beira de um Porsche 911 cabrio, encantaria o povo socialista indefectível do lifestyle (mas ainda sob o feitiço do foleiro doutor Seguro). En passant, lançar-se-ia o candidato ideal sobre a demais populaça para que esta, no momento em que fosse convocada a eleger um novo primeiro-ministro, optasse por um candidato avesso ao neoliberalismo, «amigo das pessoas» e levemente playboy.

Como estratégia: imbatível.

Desgraçadamente, Ana Garcia Martins, também conhecida por «Pipoca Mais Doce» por causa do blogue Pipoca Mais Doce de Ana Garcia Martins, disse que não. O resultado esteve à vista: o doutor Costa levou uma tareia nas eleições legislativas do candidato Dercos Aminexil.

Felizmente, o doutor Costa tinha o Certificado de Aptidão Profissional de manobrador de pesados. E dois palermas, perdão, dois ajudantes de campo.

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Foi o Valter Hugo, mãe!

Consta por aí (não garanto que seja verdade por causa daquela coisa da pós-verdade) que o fantástico Ministério da Educação recomendou um livro do escritor Valter Hugo Mãe para o 3.º Ciclo no Plano Nacional de Leitura, que contém, e passo a citar, «linguagem sexual violenta», facto que escandalizou crianças, pais e um pastor no Fundão.

Vamos a uns excertos:

«E depois fazem amor pelo cu porque não têm racha, enfiam coisas no cu, percebes.»

«E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.»

Que a prosa pueril do senhor Hugo Mãe inspire o fabuloso Ministério da Educação a recomendar a obra a alunos do 3.º Ciclo: compreende-se.

Já não se compreende a escandaleira em torno da «liguagem sexual violenta», que os petizes praticam com especial devoção nos pátios do Snapchat, do WhatsApp e da escolinha.

O embaraço, aqui, é outro: o de termos chegado a um estágio cultural/intelectual que suscite aos doutores do sensacional Ministério da Educação exaltar escritores e obras desta categoria (dito de outra maneira: estivesse o problema só naquelas frases…)

E tudo isto sem o Trump estar envolvido.

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Premonição

A propósito disto, lembrei-me disto:

O world of spring and autumn, birth and dying!

The endless cycle of idea and action,

Endless invention, endless experiment,

Brings knowledge of motion, but not of stillness;

Knowledge of speech, but not of silence;

Knowledge of words, and ignorance of the Word.

All our knowledge brings us nearer to death,

But nearness to death no nearer to God.

Where is the Life we have lost in living?

Where is the wisdom we have lost in knowledge?

Where is the knowledge we have lost in information?

The cycles of Heaven in twenty centuries

Brings us farther from God and nearer to the Dust.

 

in The Rock de T. S. Eliot

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Morreu o Leonard Cohen

Field Commander Cohen, he was our most important spy.
Wounded in the line of duty,
Parachuting acid into diplomatic cocktail parties,
Urging Fidel Castro to abandon fields and castles.
Leave it all and like a man,
Come back to nothing special,
Such as waiting rooms and ticket lines,
Silver bullet suicides,
And messianic ocean tides,
And racial roller-coaster rides
And other forms of boredom advertised as poetry.
I know you need your sleep now,
I know your life’s been hard.
But many men are falling,
Where you promised to stand guard.

I never asked but I heard you cast your lot along with the poor.
But then I overheard your prayer,
That you be this and nothing more
Than just some grateful faithful woman’s favorite singing millionaire,
The patron Saint of envy and the grocer of despair,
Working for the Yankee Dollar.

I know you need your sleep now

Ah, lover come and lie with me, if my lover is who you are,
And be your sweetest self awhile until I ask for more, my child.
Then let the other selves be wrong, yeah, let them manifest and come
Till every taste is on the tongue,
Till love is pierced and love is hung,
And every kind of freedom done, then oh,
Oh my love, oh my love, oh my love,
Oh my love, oh my love, oh my love.

Morreu o Leonard Cohen.

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So long, Mariana

Devemos a Mariana Mortágua o momento mais franco e ternurento da política portuguesa dos últimos anos. A clareza e a franqueza chegaram-nos pelo verbo: «devemos perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro». A ternura pôde ser observada na forma como alguns socialistas (sobretudo os afectos à juventude turca) tentaram acalmar as hostes: «calma, amiguinhos, isto pode ser explicado.»

As coisas são o que são. A voz delicodoce, o olhar arguto e o sorriso monalisiano de Mariana Mortágua parecem num primeiro momento consolar a nossa inquietação perante as injustiças do mundo, mas uma vez debitado, o ideário Mortágua desengana os menos incautos. Tudo é claro, límpido, inequívoco: estamos perante uma gema marxista, impenetrável e inflexível.

Imaginar uma conversa com Mariana Mortágua sobre teorias de propriedade ou diferentes concepções de justiça distributiva – dos princípios «históricos» aos de «resultado final» dissecados por Nozick, passando pela teoria da aquisição de Locke e por aí fora  – resultaria numa pequena e certamente divertida representação teatral do absurdo, com o bom senso e o consenso no papel de Godot.

No mundo de Mariana não interessa saber como, em que circunstâncias (por exemplo, se o «acumulador» já percorreu uma fileira sacra de tributos), quando e quem acumulou «dinheiro»: quem o fez, fê-lo certamente à custa de outrem. 1 € ganho por A significou 1 € perdido por ou roubado a B. A «acumulação» será sempre senão ilícita, no mínimo injustificável e imoral, contrária à consumação do preceito-mor: de cada qual, segundo as suas capacidades; a cada qual, segundo as suas necessidades.

É no mais central, distinto e chique bairro do seu cérebro que Mariana preserva e mantém intacta a sua cosmovisão do mundo, habitada pelos bibelôs marxistas da praxe: a infraestrutura e a super-estrutura; o lucro (a vil essência do capitalismo); as teorias do valor, salário e da mais-valia; a taxa de lucro e a sua relação com a composição orgânica do capital (capital variável vs. constante); as proposições referentes à proletarização e à pauperização, demonstrativas do devir auto-destrutivo do regime capitalista; e por aí fora.

Do alto dos seus Converse All Stars, Mariana acredita piamente que o capitalismo tenderá para a cristalização das relações sociais em dois únicos grupos: capitalistas (também conhecidos no mundo de Mariana como «acumuladores») e proletários (os alienados e miseráveis). As classes intermédias jamais terão iniciativa nem dinamismo histórico – como, aliás, profetizava Marx.

Mas ao contrário de Marx, para quem o poder político e o Estado eram os meios pelos quais a classe dominante («acumuladora») mantinha a sua dominação e exploração sobre o proletariado (logo, entidades a abater), Mariana Mortágua acredita que não será necessário suprimi-los, antes apetrechá-los de um exército de justos e «corajosos» (do qual ela faz indubitavelmente parte) que não terão vergonha alguma em «retirar dinheiro a quem acumula.»

Que Mariana Mortágua seja isto, não me surpreende. Que o PS caucione estas intervenções, já me causa alguma estranheza. Ou não passo eu de um incorrigível ingénuo.

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Tudo isto é triste, tudo isto é fado

Tales de Mileto acreditava que a água era o elemento fundamental do mundo, de onde tudo provinha e para onde tudo caminhava; Anaximandro, consciente da vastidão e do carácter incognoscível do Universo, defendia a ideia de que as coisas observáveis tinham origem num permanente estado de conflito entre elementos de sentido oposto (o dia e a noite, o frio e o calor, a humidade e a aridez) com o «tempo» no papel de árbitro (e expondo, en passant, a intrincada e divertidíssima história do nascimento do cosmos envolvendo uma espécie de ovo que evoluía para uma massa fria e húmida envolta num anel de fogo); Anaxímenes colocava todas as suas fichas na ideia de que a condensação e a rarefacção causadas pela deslocação do ar constituíam o motor do mundo: as nuvens, as árvores, as rochas, etc seriam variações no grau de concentração do ar.

Dois mil e quinhentos anos depois, o pós-socrático engenheiro Sócrates não tem caminhos para desbravar, nem jónios para pastorear. É razoável supor-se que na primária de Vilar de Maçada, na secundária da Covilhã, no Instituto Superior de Engenharia de Coimbra ou de Lisboa, o engenheiro tenha travado conhecimento com noções básicas de química, física e astronomia que o impeçam, hoje, de especular e arriscar como os pré-socráticos. Como é próprio dos espertos, restou-lhe alicerçar todo o seu pensamento filosófico no trabalho de outros (antes Kant, agora Weber, sempre em modo simplista) coadjuvado pela infinita força motriz da estupidez humana, capaz de colocar ao seu serviço um particular exército de figurinhas mais ou menos grotescas (do fidelíssimo André Figueiredo, ao inefável Mário Lino) e mais ou menos anónimas, prontas a compor o ramalhete e a animar o arraial. Louvada seja a impreparação dos jornalistas e entrevistadores que ainda se interessam pela coisa, louvada seja a rede viária interior-capital, capaz de proporcionar rapidez e segurança à frota de autocarros fretados (supõe-se que com as revisões em dia.)

«O Dom Profano – Considerações sobre o carisma» é, obviamente, mais um exercício de egocentrismo (tentem adivinhar em que líder carismático estaria ele a pensar), sem ponta de originalidade, a meio caminho entre a megalomania intelectual de uma mente medíocre e a vaidade incontrolável de um homem que perdeu a noção do ridículo e que julga ser capaz de sair do profundíssimo abismo em que caiu com a ajuda das lombadas dos livros que vai publicando enquanto auto-proclamado sage. Porque o tempo urge e a vida é profanamente finita, aconselho fonte 30pt, espaçamento triplo, papel de 250gr e a contratação de mais duzentos «revisores.»

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There are no more beginnings

A única coisa a lamentar da minha presença no concerto do Bruno Pernadas, anteontem, no Teatro Maria Matos, foi o facto de não me encontrar na condição de virgem. Sabia mais ou menos ao que ia. Invejo, por isso, os que, pela primeira vez, entraram numa sala de espectáculos desconhecendo a The Bruno Pernadas Experience, circunstância irrepetível para apreciar, em todo o seu esplendor, o soco no estômago que constitui aquela wall of sound. Um caso muito sério de talento, trabalho e engenho.

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Receita contra a doença moral chamada susto que eles voltem

Roubo o título a um folheto distribuído em 1808, aquando da primeira invasão francesa, com o intuito de levantar a moral da população, exortando o povo a resistir. Era este o tom: Napoleão poderia tentar aniquilar exércitos, mas jamais conseguiria combater povos. Na prática, a publicação partia da constatação de que as forças napoleónicas estariam a perder força dada a dispersão de meios entre Portugal e Espanha, circunstância que precipitou a intervenção britânica.

Aterrando no Portugal de 2016, constatamos que as máquinas de propaganda envelheceram muito pouco. As três (da geringonça) têm estado incansáveis em fazer passar uma ideia simples: a esquerda unida expulsou a armada neoliberal europeia que, por interpostas pessoas num governo fantoche, havia invadido um povo bravo e um país lindo, destruindo gratuitamente lares, empregos e feriados.

Passos Coelho passou a ser retratado como um velho, cansado e rancoroso Junot, incapaz de aceitar a derrota e empenhado num cassandrismo bacoco e agoirento, próprio de quem gostaria que o «tempo voltasse para trás» (jamé!). A Europa desceu ao estatuto de fonte de todos os males (até o combate aos incêndios nos dificultou.)

Não foi por acaso que o doutor Costa tratou de nutrir apressada e augustamente o seu eleitor-alvo predilecto (o funcionário público), nem foi por acaso que o doutor Costa chamou para o seu aconchego o sr. Arménio Carlos e o sr. Nogueira, esse par de camélias zeladoras dos interesses económicos, profissionais e fisiológicos do eleitor-alvo predilecto do doutor Costa (outra vez: o funcionário público.)

Falhada a tentativa, em plena campanha eleitoral, de conduzir o povo a um estado de sensibilidade patológica de onde sairia um babush feito santo e salvador (o homem perdeu estrondosamente as eleições), foi chegada a hora, no pós-arranjo eleitoral, de tratar do futuro – um futuro que é próximo mas nebuloso, como parece atestar o fiasco do cenário macroeconómico imaginado e partejado, no longínquo mês de Abril de 2015, por um conjunto de peritos que insiste em pastorear a ralé como se nada tivesse acontecido.

Em suma: afastados os «monstros», tratou-se de restabelecer a ordem natural das coisas (em consonância com o regresso ao poder do partido natural português), com a narrativa da «idade das trevas» pré-geringoncial ao rubro.

As últimas sondagens parecem dar conta conta de um crescimento imanente, embora ignoto, da base de apoio da cooperativa, capaz de fazer vibrar as hostes. Vivemos, por isso, um tempo idealista e ideal. Ideal, por exemplo, para falar de «escalões» e para acomodar critérios de «justiça fiscal.» As contas estão feitas: o povo está tenrinho e os «ricos» pagarão a crise.

Viva Portugal!

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O respeitinho é muito bonito, e isto das instituições tem muito que se lhe diga

O episódio «perdoe-me dr. Castro Mendes, não sei onde estava com a cabeça» foi prodigioso. Estão lá todos os tesourinhos deprimentes que nos animam e salvam da modorra de um país normal: a pré-punitiva estupefacção pública do senhor ministro face ao atrevimento do funcionário; a subserviência do senhor director vertida numa cartinha acabrunhada em que o excesso de auto-justificação denuncia o mandante; o aplauso dos que, «como é evidente», viram no episódio um caso «óbvio» de «desrespeito» e de «quebra de lealdade», a exigir penitência; e, por fim, o gesto magnânimo do patrão, que lá tolerou a traquinice e manteve o assalariado no cargo. Uma delicia.

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Let’s keep it quiet

«O ex-presidente da Comissão Europeia e antigo primeiro-ministro português vai perder os “privilégios de passadeira vermelha” em Bruxelas e vai passar a ser tratado como os restantes lobistas.» Ou seja: com privilégios de passadeira vermelha.

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Contagem de portugueses:_____

Miguel Sousa Tavares está apreensivo: as diatribes de Durão Barroso no Goldman Sachs podem prejudicar a candidatura de António Guterres. Como? Simples e óbvio: da mesma forma que «uma» Telma Monteiro representa toda uma nação na glória, «um» Durão Barroso aglutina toda uma nação na merda. No estrangeiro – lugar longínquo e mítico – um português não é um português: é um país, um povo e um pastel de nata. Alguém devia estudar isto, na medida em que talvez encontre aqui a razão do falhanço colectivo em inscrever mais e melhores portugueses nas galerias da Academia Real das Ciências da Suécia ou nos interstícios do Comité Olímpico Internacional: na hora de todas as decisões, a pressão é tamanha que a alma mingua e, com ela, os músculos, o cérebro, a ética e o jeito. Só problemas.

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Flor de obsessão

Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf
Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf
Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf Andy Shauf
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O Rio de Janeiro continua lindo

Vai longo o seriado de meretrício intelectual que a generalidade da nossa intelligentsia esquerdista, num tom ora pesaroso, ora indignado, decidiu levar à cena sob a batuta do samba Dilma, querida, que golpada, hein?

A argumentação atingiu um nível que tolera bem o epíteto «medíocre», oscilando entre o condescendente («ora, ora, no passado todos fizeram o mesmo»), o diferenciador («os que a acusam são piores do que ela») e o absolvidor («o que Dilma fez não é crime.») O corolário deste arrazoado barato seria, na prática, aceitar como admissível mascarar as contas públicas de um país («punível» única e politicamente nas urnas) e bloquear todo e qualquer processo de impeachment enquanto subsistisse nos hemiciclos uma percentagem (a fixar em portaria) de congressistas ou senadores indiciados por corrupção.

Parece não valer a pena lembrar que o PT foi o campeão dos pedidos de impeachment; que este processo, como os anteriores, seguiu escrupulosamente as regras constitucionais (não houve golpe coisíssima nenhuma); que muitos dos que, agora, «desculpam» Dilma, são os mesmos que, no passado, rasgaram as vestes quando um longo consolado de governos «neoliberais» ou «pseudo-socialistas» gregos, fizeram o mesmo com a ajuda da Goldman Sachs; muito menos reforçar que o impeachment é um instrumento político que serve para apurar a responsabilidade, por grave delito ou má conduta no exercício de funções, de quem desempenha altos cargos da nação (não exige, nunca exigiu, um crime de sangue ou um outro qualquer enquadrável numa «moldura penal»). E será totalmente inconsequente sugerir que este processo pode vir a ser vital na composição de um esquisso de consciência ética que contribua para estancar a sem-vergonhice de uma casta de políticos que pelo voto se acham legitimados em recorrer a qualquer meio para alcançar os seus fins.

Para desempoeirar o ambiente e deitar abaixo as grilhetas que impedem diálogos abertamente francos, devíamos escolher a verdade em detrimento de uma confortável omissão: a de estarmos na presença de um prosaico caso de trincheira ideológica. Se Dilma fosse uma Maria Luis Albuquerque «neoliberal», pró-germânica e amiga do «rodinhas nazi», a esquerda em peso estaria vergada à infinita rectidão, legalidade e justiça do instituto do impeachment.

Será o sr. Temer de outra estirpe? Talvez não. Com ou sem Dilma, esta discussão é, acima de tudo, fútil. É óbvio que o impeachment não salvou o Brasil de nada. Mas teve o (pequeno) mérito de fazer abanar uma cultura política que há muito deixou aninhar no seu colo o compadrio, o amiguismo, as relações malsãs entre o poder político e o poder económico, com o PT na vanguarda desta perversão.

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Some girls are bigger than others

A forma como a indignação e a irritabilidade tomaram de assalto a fácies enojada de um Pedro Marques Lopes pré-apopléctico, em plena SIC Notícias, despertou a curiosidade e interrompeu a marcha triunfante que encaminhava este contribuinte líquido para o sono dos justos. Que degradação moral tinha voltado a colocar o comentador naquele estado? Tinha sido a entrevista do juiz Carlos Alexandre. Resultado: voltar a este espaço para exercer, uma vez mais, a minha magistratura de influência.

Se gostei da entrevista do juiz Carlos Alexandre? Não, não gostei da entrevista do juiz Carlos Alexandre. Não gostei do tom e entendo, se calhar pobremente, que um juiz não deve expor-se daquela maneira: pseudo-descontraída, «franca» e «pródiga», pontuada de indirectas sobre «causas próprias.»

Também não acho que a entrevista tenha sido determinante no juízo que detractores, simpatizantes, amigos e o Pedro Marques Lopes fazem de Carlos Alexandre, o juiz. Os que visceralmente o odiavam, ou os que simplesmente antipatizavam com a personagem (é o caso de Pedro Marques Lopes), continuaram a desprezar o «saloio de Mação.» Os que o amavam e viam no homem um oásis de seriedade, continuaram a amar o «intrépido juiz.» E os que se estavam nas tintas para os estados de alma de juízes e para o conhecimento, de facto, do homem por detrás da beca (é o meu caso), continuaram adeptos do marimbismo que estes incidentes suscitam.

Mas há uma particularidade que importa sobrelevar. Posso não ter gostado da entrevista do juiz Carlos Alexandre, mas posso desde já assegurar que, no que toca ao desconforto, à inquietação e ao desprazer, a entrevista do juiz Carlos Alexandre foi um passeio no parque quando comparada com as entrevistas de José Sócrates – o elefante-engenheiro que marcou presença em todos os cenários de Mação, por onde o juiz Carlos Alexandre se entendeu passear.

No campeonato do desassossego, as respostas trapalhonas, contraditórias, repletas de pequenas mas evidentes falsidades de um homem que foi, durante seis anos, primeiro-ministro do meu país e decidiu explicar a nebulosa de casos, esquemas e relacionamentos sinistros em que se viu implicado, envolvendo somas de dinheiro incomportáveis com os rendimentos do próprio, colocam as entrevistas de José Sócrates a milhas de distância da do juiz Carlos Alexandre.

Nunca vi em Pedro Marques Lopes, ou nos que facilmente se abespinham com o «estado da justiça», o mesmo tipo de incómodo, preocupação ou tremendismo quando altos dignitários da nação decidiram exercer em prime time autênticas sessões de harakiri, convencidos, como diria o dr. Costa, das «suas verdades» e da infinita capacidade do povo ignaro engolir meia-dúzia de patranhas.

Se coloquialmente nos vêm dizer «coitado, o homem pode ser inocente, o dinheiro pode mesmo ser de um amigo que durante uns aninhos lhe passou para as mãos largas quantias em numerário e um apartamento em Paris», seria de esperar que também nos dissessem «coitados, o processo é tão complexo e crescentemente invadido por novos dados, que provavelmente estará aí a razão do atraso.» Mas não. Em certos comentaristas, que autodidactamente tiram licenciaturas em direito e mestrados em sistemas judiciais, vamos continuar a assistir a esse floreado, desequilibrado e enviesado.

Durante muito tempo, Pedro Marques Lopes encheu a boca, aos pulos (notável esforço acrobático), da «presunção da inocência», da mesma forma que agora, como antes, descarta sumariamente qualquer «presunção de competência» ou «de boa-fé» relativamente a juízes e magistrados do Ministério Público. À «presunção da inocência»: tudo. À «presunção de um trabalho sério»: nada. «A justiça colapsou», escreve Pedro Marques Lopes. Nem mais.

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iCondemn

Na vara do tribunal unipessoal onde acumulo as funções de juiz, meirinho e advogado de acusação, acabo de condenar o intelectual at large Rui Tavares a escrever mil vezes no seu caderninho de anotações a frase «não voltarei a omitir factos de modo a obter dividendos.»

A condenação acontece no dia seguinte à publicação de um artigo de opinião cujo título («Uma pouca-vergonha»), ao contrário do que parecia indicar, não se ocupava do preço das sardinhas mas da indignação de que foi acometido Rui Tavares depois de se ter debruçado, sem cair, sobre «o caso Apple».

Rui Tavares fez uma coisa feia, daí a condenação: da primeira à última linha do artigo, esqueceu-se de referir o que deu a Apple em troca desde 1980 (ano em que se instalou em Cork.) Quem lê o artigo e não conheça a história, poderá chegar à conclusão de que a Apple, com a conivência do estúpido do governo irlandês e nas barbas da ingénua União Europeia, foi ali roubar 13 mil milhões de euros às «escolas e hospitais, jardins e bibliotecas, pensionistas e desempregados, à ciência e às energias renováveis» (sic). Pior ainda: ao «investimento público e [prepare-se, caro leitor, vem aí a parte mais divertida] para o estímulo ao emprego.» Para o «estimulo ao emprego»?

Em 1980, a Apple abriu uma fábrica em Cork, na Irlanda, empregando 60 pessoas. Trinta e quatro anos depois (2014), a Apple empregava em Cork cerca de 4.000 pessoas e era indirectamente responsável por mais cerca de 2.500 empregos. Até 2017, a Apple estima aumentar para 5.000 o número de empregados directos na Irlanda.

Estão a ver aquela coisa da globalização? Estão a ver aquele fenómeno caracterizado pela livre circulação de pessoas, mercadorias e conhecimento, que tem conduzido à deslocalização de centros tecnológicos e de produção do primeiro mundo para o segundo e terceiro mundos, com nefastas consequências nos índices de emprego e crescimento económico do primeiro? A Irlanda – país onde exercem funções políticos e empresários que felizmente mantêm intactas as faculdades intelectuais clássicas – entendeu que podia e devia reverter essa tendência, atraindo investimento externo, privado, de dimensão adulta e tecnologicamente avançado. Para tal, assumiu, de forma legítima e soberana, um trade-off: impostos vs. emprego + formação + qualificação. O resultado está à vista: a economia irlandesa cresceu 26% em 2015. Em 2012, a taxa de desemprego atingia os 15%. Hoje, está nos 7,8%.

Seria bom que o intelectual at large Rui Tavares expusesse todos os factos, independentemente de concordarmos ou não com as suas conclusões (até podemos, no fim, juntar indignações.) Um verdadeiro intelectual sabe que tem esse dever.

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De como glosar um anúncio televisivo

Se um desconhecido lhe espetar uma faca nas costas e gritar Allahu Akbar! isso é…loucura / desespero / alcoolismo / depressão / alergia aos fenos / uma tentativa falhada de fazer amizade / uma partida de Halloween / o lado negro do neoliberalismo / uma técnica de venda da ICEL / culpa do Durão Barroso / alguém que o confundiu com o Passos Coelho / uma forma revolucionária de tatuagem.

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E o tema é: moda

Qualquer pessoa que acumule consciência da sua existência neste calhau e perceba o alcance dos vocábulos «democracia», «liberdade» e «tolerância», não pode deixar de sentir um calafrio quando observa as imagens de agentes da autoridade a obrigar uma muçulmana a despir a sua indumentária numa praia francesa (curiosamente, na Promenade des Anglais).

Tirando o efeito da ocultação do rosto (casos extremos e inaceitáveis da burka e do niqab) ou o da conflagração de matéria provocada por um cinto ou colete de explosivos, parece não haver um só argumento racional, equilibrado e justo, que sustente a prerrogativa do Estado poder obrigar um cidadão a despir determinada peça de roupa (podemos fazer a piada de que estaríamos abertos a uma excepção nos casos do sr. Goucha ou do sr. Herman José, but the jury should disregard such a jest). É assim que, em democracia, e de acordo com os valores que (a Ocidente) nos são queridos e que reputamos de superiores, funcionamos.

Dito isto, só uma pessoa muito distraída, um idiota útil ou um fanático às avessas poderá: a) pretender encerrar a discussão nos termos acima apresentados; b) desatender ao facto de o burkini, tal como a burka e o niqab, estar intimamente ligado ao carácter profundamente misógino de uma doutrina (religiosa e política) potencialmente totalitária, adoptada por um Islão «extremista» (vamos dar de barato que o Islão «moderado» existe e que os «moderados» do Islão «moderado» são absolutamente contrários às práticas extremistas dos «extremistas» do Islão «extremista»). Quer se goste, quer não se goste, o burkini, a burka ou o niqab são divisas de uma ideologia que promove a inaceitável humilhação e opressão das mulheres. É bastante provável que as mulheres muçulmanas adoptem aqueles dress codes contra a sua mais íntima vontade. E isso exige, desde logo, uma discussão.

Valerá a pena forçar a proibição de uma indumentária prescrita e imposta por uma lei religiosa discriminatória e subjugadora das mulheres, ou por encontrarmos nela uma carga simbólica que nos causa repulsa? Justificar-se-à desconsiderar uma aparente liberdade de escolha (usar o burkini), por estarmos muito certos de que de «liberdade» essa escolha pouco ou nada terá? Será útil e pertinente, aqui e agora, optar por uma política de «tolerância zero» em relação a toda e qualquer manifestação pública que aparente sustentar-se no extremismo e no fanatismo, deixando o Estado traçar, a régua e esquadro, algumas «linhas vermelhas»? Desta espécie de laicidade compulsiva poderá sair algo de bom?

Não sei. Temo que a resposta a todas estas questões seja «não.»

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O jornalista vazado

Sobre o artigo do sr. Malheiros, percebo a crítica e compreendo o tom revoltado do Vitor Matos. Mas temo que tenha sido exagerado. O que está em causa não é a desonestidade ou a canalhice argumentativa do sr. Malheiros. É mais simples do que isso. Não há ali sombra de argumentos. Não há, por ali, uma molécula que seja do tipo de decência intelectual de que nos falava Karl Popper. Nem sequer uma partícula subatómica de lógica ou de racionalidade. É um simples caso de vacuidade que o sr. Malheiros «jornalista» entendeu preencher com uma estrondosa bagunçada de absurdidades, num tom ora paranóico, ora persecutório. A visão estreita do que é a liberdade jornalística, o gosto pela distopia e a ampla assunção da sua ignorância em matéria de concepções políticas, são a prova de que a parlapatice não preenche vazios: amplifica-os.

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