Beware

É provável que María de Lourdes Villiers Farrow, mais conhecida como Mia Farrow, actualmente com 71 anos, se tenha cruzado com Dorothy Veronica Langan, mais conhecida como Dory Previn, antes de 1968. Mas foi a partir deste ano que a existência destas duas mulheres convergiu dramaticamente. A história é conhecida. Em 1968, durante a rodagem do filme A Dandy in Aspic, Mia Farrow, então com 23 anos e no auge da sua graça, envolveu-se com o talentoso André Previn. Ao que tudo indica (bastava observá-la para perceber que sim), terá sido Farrow a seduzir Previn, na altura a dirigir a filarmónica de Londres. Tudo bem? Tudo mal: Previn estava casado com a não menos talentosa Dory Previn. Em 1969, Dory Previn acaba por descobrir o affair e, com a gravidez de Farrow ao rubro (gémeos), Herr Previn avança para o divórcio, consumado no ano seguinte.

O único efeito «positivo» desta traumática experiência, que levou Dory Previn ao internamento num hospital psiquiátrico (ela que já tinha tido um colapso nervoso em 1967), foi o facto de a ter inspirado a compor Beware of Young Girls, uma grande canção inteiramente «dedicada» à menina Farrow:

Beware of young girls
Who come to the door
Wistful and pale of twenty and four
Delivering daisies with delicate hands

Beware of young girls
Too often they crave to cry
At a wedding and dance on a grave

She was my friend, my friend
My friend, she was invited to my house
Oh yes, she was and though she knew

My love was true and no ordinary thing
She admired my wedding ring
She admired my wedding ring

She was my friend, my friend
My friend, she sent us little silver gifts
Oh yes, she did, oh, what a rare
And happy pair

She inevitably said as she glanced
At my unmade bed
She admired my unmade bed, my bed

Beware of young girls
Who come to the door
Wistful and pale of twenty and four
Delivering daisies with delicate hands

Beware of young girls
Too often they crave to cry
At a wedding and dance on a grave

She was my friend, my friend
My friend, I thought her motives were sincere
Oh yes, I did, ah, but this lass
It came to pass

Had a dark and different plan
She admired my own sweet man
She admired my own sweet man

We were friends, oh yes, we were
And she just took him from my life
Oh yes, she did, so young and vain
She brought me pain

But I’m wise enough to say
She will leave him, one thoughtless day
She’ll just leave him and go away, oh yes

Beware of young girls
Who come to the door
Wistful and pale of twenty and four
Delivering daisies with delicate hands

Beware of young girls
Too often they crave to cry
At a wedding and dance on a grave

Beware of young girls
Beware of young girls, beware

Por que razão estou eu a contar isto? Estive a ler a entrevista da doutora Catarina Martins (jornal Público 21.08.2016).

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Claro que sim

É claro que a grande maioria dos que chacotearam e/ou repreenderam a prestação olímpica dos atletas portugueses, estarão interessadíssimos em debater e ver debatidas as mais diversas modalidades, nos grandes fóruns nacionais de discussão desportiva: Play-Off (SIC), Trio d’Ataque (RTP3), Desporto 24 (TVI), Golos (CMTV), O Dia Seguinte (SIC), Prolongamento (TVI), Pé em Riste (CMTV) ou Mais Transferências (TVI24).

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CêGêDê

Enquanto Valter Hugo Mãe nos dava conta de que «Caxinas» o tinha salvado, e nós concluíamos que nos tinha tramado, decorria a novela «A Nomeação da Nova Administração da CGD» – uma produção repleta de maus actores, péssimos argumentistas e realizadores que nem para um episódio piloto de Os Batanetes serviriam.

Assim de repente, não me lembro de um processo tão tristemente cómico, com lugar a humilhação pública de algumas «personalidades» (a dra. Leonor Beleza deve abençoar o dia em que terá dito «contem comigo.») Pormenores aqui.

A culpa vai inteirinha para uma tutela trapalhona – mal preparada, presunçosa, titubeante – que mais uma vez colocou a meretriz CGD em péssimos lençóis.

Mas nada há a recear. Há anos que somos pastoreados no sentido de incorporarmos um dogma: o de que as instituições do Estado, por serem coisa pública, são infinita e virtuosamente bem administradas. Amém.

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Smokey Bear

Proponho observarmos a campanha Smokey Bear, lançada em 1944 nos EUA, e agirmos em conformidade.

Em vez de Smokey Bear chamar-lhe-íamos «Fumacinha, o Coelhinho Perscrutador de Focos de Incêndio e Malandragem».

Para o poster oficial, em vez de um jovial, sadio e fascizóide casal de jovens escuteiros, poderíamos recorrer às minorias e à diversidade de género, preenchendo, desde logo, diversas quotas.

Na vez do Eddy Arnold, escolheríamos um dos artistas do regime, de preferência um que se debata com problemas de solvabilidade e/ou alcoolismo.

A RTP e a Antena 1 tratariam da divulgação.

Finalmente, o contribuinte pagaria mais uma importante campanha em nome do interesse público e do bem comum.

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Ah humanity!

Na epígrafe do seu opus magnum Under The Volcano, Malcolm Lowry recorre a uma passagem da Antígona de Sófocles onde se exalta o homem, essa fantástica criatura:

Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co’o sopro invernoso do Noto,
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
imortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.
 
E das aves as tribos descuidadas,
a raça das feras,
em côncavas redes
a fauna marinha, apanha-as e prende-as
o engenho do homem.
Dos animais do monte, que no mato
habitam, com arte se apodera;
domina o cavalo
de longas crinas, o jugo lhe põe,
vence o touro indomável das alturas.
 
A fala e o alado pensamento,
as normas que regulam as cidades
sozinho aprendeu;
da geada do céu, da chuva inclemente
e sem refúgio, os dardos evita,
de tudo capaz.
Ao Hades somente
não pode escapar.
De doenças invencíveis os meios
de escapar já com outros meditou.

(trad. Maria Helena da Rocha Pereira)

Por razões de economia, ou pelo que viria a escrever nas páginas seguintes, Lowry não transcreveu a 2.ª antístrofe, cujo início reza assim:

Da sua arte o engenho subtil
p’ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;

É um tema batido, eterno, inesgotável: o homem capaz dos maiores prodígios (técnicos, artísticos, etc.) mas também das maiores monstruosidades, com a natureza humana no papel de receptáculo e hibernáculo das sementes do mal, cujas radículas se tornam visíveis em momentos disruptivos, de grande incerteza e medo.

O Brexit – esse acontecimento longínquo – foi um desses momentos em que a face odiosa do homem deu um ar da sua graça. Esqueçam a desvalorização da libra, o potencial êxodo corporativo, a deslocalização dos centros de decisão, o fim da livre circulação de pessoas, a estapafúrdia reacção do inefável Juncker. O que verdadeiramente ensombrou os resultados do referendo britânico foi a forma absolutamente obscena como se classificou, julgou e condenou toda uma geração.

De uma assentada, a suposta solidariedade intergeracional eclipsou-se. O «humanismo», a «tolerância» e o «civismo» deram lugar à acrimónia, ao ressentimento e à desconfiança, num lupanar de almas cobardes e histéricas. Tudo indica que terão sido «os velhos» – egoístas, egocêntricos, ignorantes, xenófobos, pendurados nas mordomias do Estado Social – que, com o seu voto, «roubaram» o futuro de milhões de jovens.

Roula Khalaf, no Financial Times, deu conta da fúria: «Now their vision of the future has been taken away, the young are responding with rage.» Em local mais respeitável e ponderado – o Twitter… – houve uma criatura que escreveu «I know it’s not very ‘politically correct’ to say it out loud but in the wasteland of ruined Britain I am going to hunt and eat old people.» Bom proveito.

Ninguém esteve minimamente interessado em saber ou perceber o que levou «os velhos» a votar maioritariamente no Leave. Se estariam a pensar também no futuro dos filhos e dos netos. Ninguém esteve disposto a aceitar que, no meio dos «velhos», se encontrasse gente educada, informada e ponderada. Gente que, como prosaicamente se diz, «já viu muito e demais.» Gente que aprendeu as vantagens do cepticismo sobre as do optimismo e que, regra geral, tem uma perspectiva mais distendida e desassombrada sobre o passado, presente e futuro.

Ninguém, aliás, está muito interessado em perceber ou escutar «os velhos». Na sua impotência física e na sua caturrice abstrusa, «os velhos» tornaram-se uma excrescência, um saco de pancada preferencial de uma geração que «exige», «reclama» e «reivindica», recorrendo a todos os meios de que dispõe, numa imparável voragem de vaidade, presunção e ignorância. Absolutamente lamentável.

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98%

O Sr. Salgueiro tem 94 anos. Vive no concelho de Montemor-o-Novo. Ocupação: cultivo e comercialização de plantas medicinais.

O Sr. Salgueiro tem por hábito terminar qualquer conversa, independentemente do tema, com um decreto. Exemplo:

Fulano: Este Verão está um calor que não se aguenta!
Beltrano: Não me diga nada. Ainda hoje de manhãzinha estive a tentar salvar a horta… Está tudo seco!
Fulano: E dizem que o calor está para durar.
Sicrano: É o tempo dele, compadres.
[pausa]
Sr. Salgueiro: Uma coisa é certa: 98% das pessoas não presta.

Outro:

Sicrano: As sardinhas, este ano…
Fulano: Uma merda!
Sr. Salgueiro: Não estão famosas, não.
Beltrano: Em compensação os meus pimentos estão um espectáculo!
Sicrano: A morte deles é com azeitinho do bom!
[pausa]
Sr. Salgueiro: Uma coisa é certa: 98% das pessoas não presta.

Outro:

Esposa de fulano: Vai-me lá buscar um botija de gás!
Fulano: Já vou, já vou!
Beltrano: Olha que eu não sei se o Ti Manel já recebeu vasilhames cheios.
Fulano: Já lá vou confirmar.
Sicrano: E a Simone Biles?
Beltrano: Espojou-se na barra.
[pausa]
Sr. Salgueiro: Uma coisa é certa: 98% das pessoas não presta.

Como dizem os anglo-saxónicos: a cautionary tale.

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Noticias de um colete e da sua ministra

A semana passada, a dra. Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna, queixou-se de falta de solidariedade dos parceiros europeus, no seguimento do pedido de accionamento do mecanismo europeu de protecção civil (uma bolsa de meios disponibilizada pelos Estados membros da UE que permite que outros peçam ajuda em caso de necessidade.) «Esperava maior solidariedade», afirmou a senhora ministra.

Pacientemente, um porta-voz da UE explicou o óbvio ou, pelo menos, o razoável: «Neste momento, vários Estados-membros estão a enfrentar graves incêndios florestais ou perigo extremos de incêndio florestal, consequentemente a disponibilidade de aviões é muito limitada», destacando, logo a seguir, a «forte tradição de solidariedade e generosidade entre Estados-membros.»

Perante este episódio, gente mais sensível ou incauta estaria ao pulos para lembrar à dra. Constança Urbano de Sousa o caricato que é acusar a UE e os seus membros de «falta de solidariedade», lembrando, en passant, entre outras coisas, um facto singelo: entre 1986 e 2013, a nossa querida nação sorveu sofregamente cerca de 96 mil milhões de euros de fundos estruturais e de coesão (qualquer coisa como 9 milhões por dia em trinta anos). «Em matéria de solidariedade e generosidade estamos falados», diriam os exasperados.

Se me permitem: acharia desajustado um pinote que fosse. Compreendo a dra. Constança Urbano de Sousa. Suponho que seja pedir demais a um ministro de Portugal rejeitar uma narrativa secular, devidamente testada, de recorrente queixume contra «os outros», pelos infortúnios que nos têm calhado em sorte e/ou pelo incumprimento das respectivas soluções. O rol é longo e vem de longe: os espanhóis, os holandeses, os ingleses, as agências de rating, o calor, o Goldman Sachs, o sr. Dijsselbloem, a UE, o sr. Draghi (nos dias em que desliga o QE). E por aí fora.

Seria, também, de uma violência indizível, exigir que a dra. Constança Urbano de Sousa cometesse a imprudência de contrariar um dos mais relevantes diktats geringonciais: sempre que possível, culpar a Europa (coisa que, a seu tempo, poderá dar imenso jeito.)

Deixemos, por isso, a senhora ministra em paz.

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O nosso Bobby Fischer

A vastíssima multidão de simpatizantes da solução governativa formalmente conhecida como «geringonça», não cabe em si de contente com a aparente solidez da dita. Nada parece perturbar a agremiação liderada pelo dr. António ‘Pangloss’ Costa. Por alturas do caso «Olá, sou secretário de Estado e tenho um cartão Galp Milhas», houve gente que não escondeu o gozo íntimo decorrente do visionamento das reacções cândidas (para não reputar de fofinhas) de Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. «Alô, alô Vidigueira: estão no papo!»

Subjaz a esta satisfação uma ideia que tem vindo a instalar-se no comentarismo indígena, certificada por politólogos, doutores de Coimbra e exóticos do ISCTE: a de que o dr. António Costa é uma grande cabeça e um estratega gigante. Uma versão moderna e rasteira do argumento ontológico de Anselmo: o dr. Costa é um grande estratega pelo facto de termos formulado a ideia de que o dr. Costa é um grande estratega.

Vítor Matos, em artigo publicado no Observador, chega mesmo a observar que o «mestre» disputa cinco partidas em simultâneo. Vindo de um jornalista habitualmente arguto e quase sempre sensato,  esta perspectiva diz muito da vitalidade da imagética laudatória entretanto produzida.

Não quero, de modo algum, melindrar ou pôr em causa a percepção dos justos. Daí que me disponha, desde já, a pedir desculpas pelo que se segue: onde o Vítor Matos vê um xadrezista notável, eu vejo um hábil malabarista (que jurou cumprir a promessa de não aumentar impostos, aumentado…er… impostozinhos); onde uns vislumbram a arte da grande estratégia, eu vislumbro um talento muito particular para o oportunismo político  (não é qualquer um que, em poucas semanas, passa de estrondoso vencido a primeiro-ministro de um país); onde outros observam espírito ecuménico e capacidade conciliadora, eu vislumbro queda para a celebração de negociatas partidárias impregnadas de um tacticismo que os despudorados flic-flacs à rectaguarda da dupla Martins & Sousa provam à saciedade. Aproveito, aliás, para assinalar o excelente contributo das alterações politico-comportamentais de Martins & Sousa para a credibilidade da política portuguesa e para a saúde da espinha dorsal das personagens em causa.

Vasco Pulido Valente cunhou a expressão «geringonça». Relembro outra, forjada por Sousa Bandeira, que se adequaria na perfeição ao que se observa: «pastel.»

Um pasteleiro queria
Fabricar um pastelão
E porque tinha de nada
Deu-lhe o nome de fusão

A acompanhar com cavaquinho e reco-reco.

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Um pouquinho de vergonha na cara

Convinha que os dirigentes, apparatchiks e simpatizantes do partido que sustenta o actual governo e cerca de 50% dos governos constitucionais do Portugal pós-25 de Abril, evitassem o aproveitamento político da onda de incêndios para apontar o dedinho ao outro partido que sustentou o anterior governo e a outra metade dos governos constitucionais dos últimos quarenta anos. E vice-versa.

No que toca ao «ordenamento do território», PS e PSD deviam estar, como sói dizer-se, caladinhos. We have been watching you.

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Hand in Glove

Antes de ir de férias, Pedro Marques Lopes escreveu isto no Diário de Notícias:

Reparei que muita gente não se exaltou com o emprego de Maria Luís Albuquerque ou o de Durão Barroso. Desta vez, pouca gente não se indignou com a conduta dos três secretários de Estado, e notou-se muito menos os habituais comportamentos de trincheira do que em casos de atuações sérias contra a ética ou mesmo contra a lei.

Não devo estar bem da cabeça. Ou, em alternativa, vivo num país diferente do país do Pedro Marques ‘O Durão Barroso Deixou-me À Beira De Uma Síncope’ Lopes. O que, não sendo verdade, implica que estou decididamente maluco.

Como foi público e notório, houve muitíssima gente exaltada com o emprego de Maria Luís Albuquerque e mais ainda com o de Durão Barroso (com direito a reacções além-fronteiras). As redes sociais – um excelente barómetro de exaltações – estiveram ao rubro. Por todo o lado se mastigou o assunto.

Aquilo que Pedro Marques ‘Vou Lavar a Boca Sempre Que Disser Durão Barroso’ Lopes escreveu é, simplesmente, falso. O que não deixa de ser curioso: o articulista foi o segundo mais excitado comentador do caso Barroso-Sachs, companheiro radiofónico do número um.

Mais: plantar Durão Barroso e Maria Luís Albuquerque neste caso é contribuir para saturar (mais ainda) o comentarismo luso com o seu artefacto retórico fétiche: a «invocação redentoro-salvífica.» Temos facto desagradável, obsceno ou embaraçoso? Invoca aí outro «equivalente» que o desvalorize por comparação ou mera companhia. Não é bem a mesma coisa? Não interessa: afinfa-lhe. Não há cão nem gato que não use e abuse deste mecanismo.

Que utilidade tem a análise comparativa das reacções populares nos casos de Durão Barroso, Maria Luís Albuquerque e Rocha Andrade? Obviamente, nenhuma. O Pedro Marques ‘O Durão É Um Tratante’ Lopes acha-a «curiosa» na medida em que parece evidenciar a tendência popular de vergastar os que, pelas suas acções, acabam a reflectir a comezinha fraqueza moral dos populares, esquecendo, pelo caminho, os verdadeiros tubarões (os que actuam «contra a ética ou mesmo contra a lei.») Uma belíssima treta.

O Presidente da comissão que reviu o Código do Procedimento Administrativo, Fausto Quadros, foi claro num caso que é claro: «se os secretários de Estados não pedirem para se afastarem de decisões que envolvam a Galp, todos os actos podem ser anulados em tribunal, por exemplo através de uma acção interposta por um concorrente da empresa.” E acrescentou: “a lei portuguesa nem é das mais exigentes a nível europeu e a lógica do legislador é que quem recebe uma prenda fica a dever um favor a quem fez a oferta.» Ao contrário do que Pedro Marques ‘Nem Um Carro Usado Compraria Ao Durão Barroso’ Lopes insinua, este caso não nos remete para um acesso populista de puritanismo ou para um inadequado quadro de assepsia num ambiente humano, invariavelmente falível e naturalmente imperfeito.

Não perceber que, hoje em dia, as democracias ou a res publica precisam do tranquilo mas exemplar cumprimento destes preceitos éticos como do pão para a boca, é não perceber nada. Não perceber que é o nacional-porreirismo do «podia ser pior» ou do «que mal é que faz?» ou do «toda a gente sabe que o homem é sério» que escancara a porta ao populismo das indignações gratuitas, é não perceber nada. Não perceber que não há éticas de primeira vs. de segunda, é não perceber nada.

Resta-me uma dúvida: qual seria a reacção do Pedro Marques ‘O Hans Gruber Ao Pé do Durão Barroso É Um Santo’ Lopes caso se viesse a descobrir que Maria Luís Albuquerque tinha viajado em lazer a expensas do litigante Santander Totta?

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Arrogante? Uma cabeça!

Sobre o dr. Rocha Andrade, Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, cito opinião anónima presente numa notícia do Observador:

…arrogante, como acontece a todos os tipos inteligentes.

Confirmo. Em 2012, quando recorri às urgências do Hospital do Espírito Santo por ter partido o V osso metacarpiano da mão direita, e depois de encaminhado «para a sala da esquerda», perguntei a um senhor que envergava bata se se tratava do médico ortopedista. A resposta, acompanhada de uma cara de pau certificada pela Ordem dos Médicos, foi «vê aqui mais alguém!?» Percebi, de imediato, que tinha sido acariciado pelo envolvente e enfático bafo da inteligência. Estava perante uma sumidade. Agradeci, em silêncio, a Deus.

De então para cá, tenho estado atento. Acumulei sinais e demonstrações suficientes para concluir que o colega fulano que disse o que disse ao Observador sobre o dr. Rocha Andrade, não só está certo como saberá, como eu, que este é um país carregado de gente inteligentíssima. É vê-los por aí: nas repartições públicas, nas televisões, nas escolas, nas empresas, nas academias, nos tribunais. Estou perfeitamente convencido de que, à excepção daquele pedaço europeu que vai de Calais a Banyuls-sur-Mer, passando por Hendaye e Point Saint-Mathies, não há na Europa progressista lugar mais favorecido pelo toque da inteligência.

Julgavam, caros leitores, que a arrogância era sinal de falta de educação, falta de formação e respeito ou, não raras vezes, uma forma primária de mitigar a impreparação técnica ou mascarar a ignorância? Deixem-me dizer-vos com toda a arrogância: burros!

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Something is rotten

Aquilo a que temos assistido nos últimos dias, não deverá surpreender ninguém.

A tentativa de diabolização do povo britânico – convenientemente confundido com o idiota do senhor Farage – é parte da estrondosa e iminente «fuga para a frente» que a União Europeia se prepara para correr.

Digo «convenientemente» porque Juncker – a face «institucional» mais visível dessa malaise que há muito corrói aquilo a que pomposamente designaram de «o mais belo projecto político da história dos projectos políticos» – precisa de combustível para o próximo negócio da sua vida: provar ao mundo e aos «piquenos» que só o degredo e a humilhação os aguarda caso se atrevam a descarrilar. «Quem não é por nós, é contra nós.» Há que dar o exemplo.

A secundá-lo estão Merkel (*), o inefável Holland, Renzi e esse grande vulto chamado Tusk, por sua vez apoiados por laboriosos apparatchick, lestos em servir a causa. 

É esta laia de gente – mesquinha, arrogante, vingativa e por estes dias aflitíssima – que nos calhou em sorte e se prepara para pôr em prática a mais engenhosa táctica instigadora de repulsa desde que Iago sussurrou ao ouvido de Otelo «já que tens um tempinho livre, anda cá ouvir uma coisa.»

Não vai ser bonito.

(* Merkel proferiu hoje declarações que a afastam do ressabiamento, da petulância e da pequenez de outras personagens, revelando a fibra e a classe de um verdadeiro estadista: não invectivar um povo e um país que foi e continua a ser um parceiro e um aliado. Para já, uma lição.)

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Rule, Britannia

Devo ser dos raros portugueses que ficou mais ou menos indiferente ao processo de referendo no Reino Unido. Abstive-me de dar palpites e de entrar na animadíssima roda de papalvos que entendeu dar indicações ao povo britânico sobre como deveria votar e vociferar contra os que discordavam das suas orientações. Por duas ordens de razão. A primeira: não sou britânico. A segunda: não sou ninguém.

Se fosse britânico, provavelmente teria votado «remain». Mas isso interessa coisa nenhuma.

O resultado foi, entretanto, conhecido. Os britânicos votaram, maioritariamente, no «leave». Uma escolha feita em liberdade, de forma democrática e expressiva. Como é, aliás, um hábito naquelas paragens há uns aninhos (centenas, acho).

Em Portugal começaram, entretanto, os desmaios, o histerismo e o particular desconforto de algumas alminhas para quem o voto popular é muito aborrecido e desagradável quando o resultado lhes é «antipático».

O Dr. Rui Tavares, por exemplo, está que não pode. É com grande expectativa que se espera, a todo o momento, a reacção oficial do partido Livre.

I can hardly wait.

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Próxima paragem: plantas artificiais

Jardim da Estrela, tarde de Domingo soalheira. Junto ao parque infantil, um jovem pai dá pela presença de um animal e avisa a criança de cinco anos:  «Olhe, Miguel: um pato.» A criança entra num registo de estupefacção, próprio de quem acabou de ver uma versão zombie do Noddy montada num tigre-da-tasmânia. Ali ao lado, num dos guardanapos de relva que pincelam a paisagem, decorre uma private birthday party, com direito a bandeirinhas, balões, musiquinha infantil e avós confusos. Ao largo e em movimento, uma criatura fantástica conduz uma bicicleta repleta de gadjets: discos compactos colocados entre os raios das rodas; no cesto frontal, encabeçado por um papagaio postiço, um ruidoso leitor de cassetes alimentado por uma descomunal bateria de 12 V, debita música dos Alphaville; na rectaguarda, um engenhoso mastro ostenta uma bandeira do Benfica. Junto ao quiosque, um grupo de hipsters dedica-se à encenação do que parece ser um pic-nic hipster. Do lado oposto, sentada num banco de jardim, uma idosa dá colo a um enorme cão. A posição do cão projecta de forma graciosa a cabeça deste no corpo da idosa, numa simbiose perfeita. Granny-mutt. De resto, e por todo o lado, o bendito betuminoso.

Mal que pergunte: por que razão anda a Câmara Municipal de Lisboa a pavimentar os jardins da cidade (sendo o caso mais recente o do Príncipe Real) com betuminoso? Que mal terá a terra, o pó, aquela crosta branda do solo que o homem pisa há milénios, e onde habitualmente germinam plantas e habitam pequenos organismos multicelulares, como formigas, besouros, lagartixas, minhocas?

Será a aborrecida derrapagem da roda da bicicleta? Será a acidental lama que conspurca os imaculados New Balance? Será a tonalidade heterogénea ou o aspecto «sujo» e «descuidado» que afugenta o turista? Serão as poças com o seu insuportável efeito splash? Será o «desconforto» de uma textura áspera e imprevisível, favorável à queda dos petizes? Serão os «custos de manutenção»?

Pouco importa que o betuminoso garanta «extrema porosidade», uma cor «inócua» e perfeitamente «integrada», um «remate» esmerado aliado a uma linearidade perfeita. Uma cidade obcecada em fazer desaparecer dos seus espaços verdes qualquer nesga de terra, de solo «em bruto»; uma cidade obcecada em combater o «irregular» em nome de um ideal de perfeição ergonómica; uma cidade interessada em acrescentar e acumular camadas de recursos e mecanismos que nos separem, paulatinamente, do que supostamente é incerto, desigual e contingente, em nome de um ilusório sentimento de segurança e previsibilidade; uma cidade capaz de nos povoar a mente de paisagens marcadamente postiças; uma cidade assim é uma cidade doente. Pior do que isso: dirigida por idiotas.

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O meu presidente

Portugueses,

Tomo hoje posse como presidente da república portuguesa.

Contrariando o que tem sido propalado por antigos presidentes da república, ou por proeminentes figuras da república quando convocadas a discursar em dias solenes, gostaria de vos dizer o seguinte: não esperem grande coisa de Portugal, na exacta medida que o país não esperará grande coisa de vós.

Portugal é um país pequeno, sem grandes recursos, povoado por gente de capacidade muito desigual, embora na sua maioria medíocre. Gente mais ou menos avessa ao trabalho, mais ou menos avessa ao estudo e ao rigor, gente mais ou menos habilidosa, gente mais ou menos talentosa. Não tenham, por isso, ilusões: não fomos, não somos, não seremos nada de especial.

A classe política, da qual eu faço parte e constituo um bom exemplo, gozando da eterna complacência do povo que supostamente deveria servir, tem sido invariavelmente miserável. Não porque tenha origem numa coutada marcada por problemas de consanguinidade, e por isso propensa à idiotia, ou por ser portadora de um particular gene da estupidez. Acreditem no que vos digo: por detrás de um político medíocre ou fraco, escondem-se dezenas, centenas de portugueses igualmente medíocres e fracos.

Não acreditem quando vos disseram que temos um problema de falta auto-estima. Não temos. A haver um problema, será de excesso: excesso de auto-estima e de auto-confiança, que nos conduz invariavelmente a achar que “o que é nacional é bom”; excesso de verborreia e lero-lero, que nos leva a confiar cegamente na bondade da palavra, no carácter salvífico das convicções e a presumir que, com tanto diagnóstico, nada poderá falhar; excesso de bazófia e de orgulho, embevecidos pelo paleio das “bolsas de excelências” ou embriagados pelos relatos que nos dizem: lá fora, somos o máximo.

Não vos trago, anuncio ou prometo a salvação. Não há salvação possível, porque nada há a salvar. As coisas são o que são. O orgulho que nos poderia proporcionar a longínqua memória de um Portugal glorioso, de nada nos poderá servir, na medida em que a perspectiva mítica de uma nação nunca foi motor de coisa nenhuma. Do passado, tentemos preservar o património tangível que nos foi legado e não estragar o que, apesar de tudo, teima em perdurar. Já seria muito bom, portugueses.

Estamos, em suma, entregues a nós próprios: áquilo que fazemos ou não fazemos, decidimos ou não decidimos, assumimos ou não assumimos, numa escala que é muito mais atómica do que propriamente colectiva.

Portugal não é “obra de todos”. Deixemo-nos de tretas: “Portugal” não existe. Se vos disserem o contrário, estarão a mentir. Boa sorte.

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O caso Raposo (yawn)

Após dezenas de cartas, faxes e telegramas, e de um solitário email que li de soslaio mas cuja primeira frase («Se vieres a Évora este fim-de-semana traz bacalhau de cura amarela») me leva a crer versar sobre a família Raposo, atrevo-me, por fim, ao habitual e popular exercício de comentário politico-sociológico – breve e simplório, comme il faut – sobre o tema do momento: Henrique Raposo e o Alentejo (e vice-versa).

Sobre o caso, cuja gravidade envolve já a mui nobre policia de segurança pública (destacada que foi a comparecer no sempre estimulante evento desportivo olímpico do «lançamento de livros», neste caso possivelmente apetrechada com sensores de bolota), apraz-me dizer o que se segue.

O Henrique Raposo cometeu um erro simplista, muito comum em povos idealistas e imaginativos, provenientes de países exíguos, genética e historicamente estabilizados: achar que os 92.212 km2 que nos calharam em sorte seriam capazes de albergar bolsas regionais idiossincráticas, carregadas de traços psicológicos e sociológicos de grande contraste, cada uma produzindo uma linhagem de seres de comportamento distinto (nalguns casos espectacular e/ou bizarro), merecedoras de um opúsculo sobre hábitos autóctones e de umas declarações definitivas num programa sobre «irritações» (do inglês «rash»).

Muitos dos traços que o Henrique Raposo identifica nos «alentejanos» (e vamos continuar a acreditar que existe essa raça), chegaram ao conhecimento do Henrique em modo «mítico» e sobretudo por interposta pessoa (via testemunho familiar de alentejanos há muito deslocados, ou através de entrevistas que o Henrique Raposo levou a cabo durante algumas semanas.) O conhecimento de facto e in loco do Henrique Raposo provém, por isso, de incursões pontuais e fugazes a terras alentejanas. E isso nota-se.

A prova de que o conhecimento do Henrique sobre o «Alentejo» e os «alentejanos» é deficitário – partindo do duvidoso princípio de que é possível adquirir um conhecimento irrepreensível, certeiro e definitivo sobre «os alentejanos, «os transmontanos», e por aí fora – é facilmente identificável na forma como particulariza a generalização tomando como próprio de alentejanos comportamentos, tiques ou costumes que encontramos amiúde e com facilidade um pouco por todo o país «interior» – ou como os lesboetas gostam de referir: na «província.»

Em bom rigor, o problema do Henrique não está no conhecimento deficitário do «Alentejo» e dos «alentejanos»: está no desconhecimento daquilo a que comummente se denomina de «país real.»

A bestialidade e a rudeza de modos; a tacanhez e a timidez; os preconceitos e os tabus (os novos e os velhos); a propensão para o conformismo e para o fatalismo; a disposição para a suspeição e para a mesquinhez; um certo orgulho regionalista indutor de coisa nenhuma (quase sempre instrumental e do agrado dos caciques); são características difusas e transversais ao povo português (e, já agora, à humanidade em geral) – mais diluídas, metamorfoseadas ou domadas nas grandes cidades; mais acirradas ou concentradas no interior.

O «grande» contraste – se quisermos apelidar de «grande» o que na realidade, no caso português, é modesto – deverá ser encontrado em duas levas: a) entre o interior (o interior da solidão associada ao isolamento; da maior falta de instrução; da falta de meios; da população envelhecida) e o litoral (o litoral dos grandes aglomerados populacionais, cosmopolita e «miscigenado»); b) entre as populações marcadamente rurais e as consolidadamente urbanas.

Sempre, aliás, assim foi.

O Henrique sente-se claramente desapontado com o «Alentejo» e eu compreendo-o. Quem viveu quarenta anos da sua vida em Évora, certamente não esquecerá o que é viver quarenta anos da sua vida em Évora: a inveja mesquinha; o moralismo hipócrita; o maniqueísmo e a mediocridade de boa parte da intelectualidade eborense; a permanente desconfiança em relação a quem ousa estar bem com a vida; o bota-abaixismo; as brincadeiras alarves e tontas; o clientelismo anão dos amigalhaços e funcionários do partido; a estupidez intestina da prole falida dos latifundiários, adepta do touro e da incivilidade; e por aí fora.

Quem viveu quarenta anos da sua vida em Évora, com família espalhada por diversas vilas e aldeias alentejanas, também sabe que por lá encontrou, e ainda hoje encontra, gente genuinamente boa, decente, desempoeirada e livre, que fez da boa-fé, da simplicidade e de uma inocência já perdida, um modo de vida.

Acima de tudo, quem se mantém vivo há mais quarenta anos e tem passado boa parte da sua existência no corredor interior, sabe duas coisas. A primeira: há gente tímida, medrosa, burra e estúpida em todo o lado. A segunda: não é possível criar uma teoria geral sobre a população de uma determinada região de Portugal. Por muito pouco interessante que esta conclusão resulte.

PS: Quanto ao suicídio, deixo a resposta que o meu pai, alentejano de 73 anos, me deu quando lhe perguntei ‘por que razão os alentejanos são mais propensos ao suicídio?’: «porque, provavelmente, são mais inteligentes.»

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